| Samantha Ciuffa |
| Coleções na Pinacoteca Municipal de Bauru (Casa Ponce Paz) |
Quantas vezes você já foi a um museu em Bauru? Você sabe quantos espaços deste tipo a cidade possui? Mesmo com entrada gratuita, por diversos motivos, estes são lugares que ainda permanecem distantes da maioria dos bauruenses.
Com as tecnologias digitais tomando conta de grande parte do tempo das pessoas, os museus públicos têm buscado, nos últimos anos, se adequar às novas demandas, oferecendo, por exemplo, parte do seu acervo por meio da Internet e proporcionando experiências sensoriais ou que proporcionem algum tipo de interatividade para os visitantes. As mudanças, inspiradas em exemplos bem-
| Samantha Ciuffa |
| Alex Sanches: acervo de museus será digitalizado |
sucedidos de grandes museus ao redor do mundo, ainda ocorrem, contudo, a passos lentos, especialmente em razão de restrições orçamentárias.
Trata-se de uma dificuldade que não é exclusividade de Bauru. Exemplos explícitos de como estes lugares recebem atenção secundária do poder público são os incêndios que destruíram o Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em dezembro de 2015. Ambos seguem fechados para reconstrução.
| Samantha Ciuffa |
| Douglas Ruzzon é responsável pela digitalização dos arquivos dos museus Ferroviário e Histórico |
"A única consequência positiva destas tragédias é que elas geraram uma preocupação imediata com os museus, que receberam mais investimentos naqueles momentos", cita Alex Sanches, diretor da divisão técnica dos museus da Secretaria Municipal de Cultura.
INOVAÇÕES
Em Bauru, são cinco os espaços públicos caracterizados como museu: além do mais conhecido deles, o Museu Ferroviário Regional de Bauru, há o Museu Histórico Municipal de Bauru, o Museu da Imagem e do Som de Bauru (MISB), a Pinacoteca Municipal (Casa Ponce Paz) e o Museu do Instituto Lauro de Souza Lima (leia mais no quadro abaixo).
Hoje, contudo, tanto o Museu Histórico quanto o MISB não estão abertos à visitação, porque passarão por reforma com recursos do Fundo de Interesses Difusos (FID). "Já foram investidos mais de R$ 800 mil para a troca do telhado e, agora, serão quase R$ 1 milhão para acabar de revitalizar a área. A proposta já está aprovada. Só falta a liberação da verba", acrescenta Sanches.
Ele explica que o Museu Ferroviário, que recebe anualmente cerca de 15 mil pessoas, já desenvolveu experiências com exposições sensoriais, incluindo peças que poderiam ser tocadas ou que tinham cheiro. Com a boa aceitação do público, o espaço busca implantar inovações e uma delas deve ser anunciada ainda neste ano, conforme adianta Luiza Barbosa, museóloga da Secretaria Municipal de Cultura.
"Em agosto de 2019, o Museu Ferroviário completa 30 anos e iremos presentear a população com uma nova exposição. Não podemos revelar detalhes, mas a ideia é inserir alguns elementos mais interativos, digitais e dinâmicos", comenta, sobre a inciativa que será custeada com recursos do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
DIGITALIZAÇÃO
Além disso, o museu está passando por um processo de digitalização do seu acervo, que inclui mais de 22 mil fotos, 1 mil mapas, 80 mil documentos de texto e 2 milhões de folhas de jornal. Todo este material, disponível para pesquisa no prédio, começou a ser escaneado, identificado e catalogado para cadastro no site da instituição, o www.projetomuseuferroviario.com.br. Criado há apenas dois anos, o endereço soma, até o momento, 800 mil visualizações. Leia mais sobre o assunto em artigo do Segunda & mais.
| Samantha Ciuffa |
| Luiza Barbosa: em breve, inovações serão anunciadas |
| Samantha Ciuffa |
| Várias peças chamam atenção também no Museu Ferroviário de Bauru |
Para estrangeiro ver
Segundo Alex Sanches, cerca de 5% do público que visita o Museu Ferroviário é originário de outro país.
São pesquisadores interessados na história da construção da malha ferroviária da região.
"Vem gente da Bélgica, Estados Unidos, Japão, porque a Noroeste do Brasil tem características francesas, tanto que a nossa estação foi construída ao estilo art déco.
É diferente de outros lugares, já que a maioria tem caráter inglês. Além disso, a ferrovia trouxe inúmeros benefícios para a cidade, como os hospitais de Base e Manoel de Abreu", pontua.
Alternativa doméstica
Para driblar as limitações orçamentárias, os museus de Bauru têm encontrado, por vezes, soluções caseiras. É o caso de uma mesa de digitalização para mapas, que foi confeccionada pelos próprios servidores.
Trata-se de uma estrutura de ferro, onde uma câmera fotográfica é acoplada para deslizar em altura sobre o documento. "A câmera tira várias fotos e um programa as une, depois, no computador", afirma Alex Sanches.
Assim como este equipamento, um escâner de mesa de alta resolução e um outro planetário, para documentos mais sensíveis, ficam no Museu Ferroviário. Porém, eles também serão utilizados para digitalizar o acervo do Museu Histórico Municipal. Todo o material já está no prédio do Museu Ferroviário, disponível para pesquisa presencial, inclusive, até que todo o processo seja finalizado.
Multifuncionalidade
Um exemplo de espaço multifuncional e moderno, que abriga passado e presente ao mesmo tempo, é o Farol Santander, no centro de São Paulo. No prédio, há espaço para exposições, reuniões, uma cafeteria, eventos e gastronomia.
Um pouco inspirada em modelos como este, a direção do Museu Ferroviário pretende criar um espaço novo dentro da Praça Kaingang. A ideia é revitalizar o jardim, instalar um redário (com redes para descanso) e uma área para café.
"Queremos atrair os trabalhadores do comércio no horário de intervalo e, assim, fazer do museu um espaço ainda mais acessível, como se fosse uma segunda casa para as pessoas", observa Alex Sanches.
Principais peças
No Museu Ferroviário, a peça que mais chama a atenção do público, sem dúvidas, é a Maria Fumaça. A locomotiva pode ser visitada todos os dias pela população, mas os passeios estão temporariamente interrompidos. Quando as viagens ocorriam, o museu chegava a contabilizar 45 mil visitantes por ano.
Já no Museu Histórico, há uma bíblia do século 19, considerada rara pelo Vaticano porque está escrita em alemão e não em latim. Na Pinacoteca, além das peças confeccionadas pelos irmãos Ponce Paz, recentemente restauradas, há pinturas nas paredes internas do prédio, que estavam cobertas por uma camada de tinta branca e foram encontradas em 2008 por funcionários da Secretaria Municipal de Cultura.
Interação no site
| Samantha Ciuffa |
| Douglas Ruzzon é responsável pela digitalização dos arquivos dos museus Ferroviário e Histórico |
No site do Museu Ferroviário (www.projetomuseuferroviario.com.br), os usuários podem enviar relatos de histórias sobre fotos ou documentos de texto cadastrados na página. Depois de passar por avaliação, o conteúdo é disponibilizado para acesso público, como informação complementar que ajuda a contar o passado das ferrovias da região. No site, o plano também é começar a disponibilizar vídeos e áudios com depoimentos de ferroviários, captados para a confecção de dois livros sobre a história da ferrovia.
Eventos e excursões na celebração da data
O Museu Ferroviário desenvolve diversos eventos ao longo do ano, sendo o mais recente deles realizado ontem e anteontem, dentro da Semana Nacional dos Museus, que comemora o Dia Internacional dos Museus, cuja data oficial é 18 de maio. Outro exemplo são os encontros de jogos de tabuleiro, que ajudam a atrair público para estes espaços, especialmente os jovens.
"Também recebemos alunos que vêm para visitação com suas escolas, as crianças que participam das 'Férias no Museu' e gente da região, que tem familiares que foram ferroviários ou que tem alguma ligação com a ferrovia. Nosso público é muito heterogêneo", diz Sanches.
'Tecnologia não é o único caminho'
Afirmação é de Carlos Roberto Brandão, diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, para quem as linguagens digitais estão entre as opções
Monótono, previsível, elitizado. Estes ainda são alguns adjetivos atrelados aos museus, conforme revelou pesquisa recente elaborada pelo Instituto Oi Futuro. Na tentativa de espanar a poeira para retirar as camadas do estereótipo de que museu não passa de um depósito de objetos, estes espaços têm buscado soluções para criar uma relação afetiva e de pertencimento entre os visitantes e o que está sendo exposto.
O uso das linguagens digitais tem sido um caminho, mas não pode ser o único, na opinião do professor Carlos Roberto Brandão, diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP).
"Não é uma receita de bolo. Para um museu histórico, por exemplo, as novas tecnologias podem ter um papel mais secundário, acessório. Elas não são a panaceia universal para os museus. Tudo depende das circunstâncias, da finalidade, do tipo de público e dos valores que o museu quer passar", analisa ele, que também é membro do Comitê Internacional de Museus.
Brandão aponta movimentos de modernização dos museus que datam da década de 1990 e incluem tendências de exposições interativas e sensoriais. Ele pondera, contudo, que o uso destas tecnologias precisa, para fazer sentido, potencializar a experiência dos visitantes.
Caso contrário, será mero entretenimento, o que nem passa perto de ser o foco principal dos museus. "Eles são um espaço de reflexão. Os museus precisam se adaptar às novidades, articular linguagens, mas a interatividade precisa provocar o cérebro, precisa se dar no âmbito intelectual", destaca.
CARÊNCIA
Apesar de museus ainda carregarem certo estigma e, muitas vezes, serem percebidos como um local para ir uma vez só, o número destes espaços no País vem crescendo, conforme releva Brandão. Porém, a grande maioria das cidades continua sem ter um equipamento deste tipo, importante para valorizar a memória, estimular a construção de identidade de um povo e ser referência da cultura nacional. "Dos mais de 5.500 municípios brasileiros, pouco mais de 1.200 têm museus. Então, ainda há uma carência. Claro que seria irrealista pensar em um museu por município em razão dos custos envolvidos, mas é algo que preocupa, porque a preservação da história destas cidades não está garantida", completa.
Almoço Solidário
No dia 26 de maio, será realizado o Almoço Solidário em prol da reforma do Museu Histórico Militar de Bauru. O evento ocorre a partir das 12h, no Buffet Mantovani, que fica na avenida Elias Miguel Maluf, 1-26.
Entre as atrações já confirmadas, estão uma miniexposição do museu, shows musicais e DJ, sorteios, brincadeiras para a garotada, jogos para exercitar a mente e mini spa. Os convites já estão à venda por R$ 35,00 nos pontos de venda: Tok Final Decorações, Elizete Doces Finos, Café 21, Adesivo Comunicação Visual, QLinda Lingerie e DAP Negócios Imobiliários. A compra de uma mesa dá direito a uma garrafa de vinho e uma sobremesa extra.