Gosto de dias que começam fresquinhos, de céu azul, sem nuvens. Assim, o outono é uma de minhas estações de predileção. Só perde para o amor que tenho pela primavera. O único inconveniente dos dias frios é que, no meu caso, com eles vem também a fome ampliada, aquela que convida a comer coisas gostosas, quentinhas, acolhedoras e calóricas.
Estou certa de que tal fenômeno não se dá exclusivamente comigo, porque observo várias pessoas, sobretudo as mulheres, reclamando do aumento de apetite durante essa época do ano. Se a fome fosse a única que aumentasse, não haveria problema, mas junto com ela aumentam regiões do corpo que não são geograficamente favorecedoras ao visual, por assim dizer.
Curiosamente, completamente oposta à fome, a vontade de fazer exercícios só faz diminuir. A cada dia pareço arrumar uma nova justificativa para deixar de comparecer aos meus compromissos de condicionamento físico. Embora eu não goste disso e me cobre intimamente pelas ausências, o fato é que juntando a inércia do corpo com o esforço do garfo, o resultado não é exatamente o que desejo.
Aqui em casa, acompanhando a tendência dos donos, os bichos também ficam especialmente famintos. Comem nada menos do que o dobro. Os sachês de ração úmida vão se sucedendo durante o dia e os vidros de ração seca igualmente continuam baixando o nível. Todo mundo fica mais sonolento e até mais recolhido. Há horários em que a casa é só silêncio, repleta de criaturas de barriga cheia e cobertas até as orelhas. De todos eles, somente os humanos sentem algum remorso.
Outra injustiça é que todo mundo acha bonitinhos os bichos barrigudinhos, com aparência de animais de pelúcia, enquanto não se pode dizer que a sociedade dispensa o mesmo tratamento às pessoas. Ainda que se tenha um cuidado maior atualmente com animais obesos, a fim de lhes conferir maior tempo e qualidade de vida, eles mesmos nada se importam com isso. Usassem calças com zíper ou botões, talvez o fato não lhes fosse tão alheio.
Brincadeiras e exageros à parte e excluindo do tema os exageros, comer em tempos de frio é mesmo um prazer à parte. A vasta carta de sopas a serem degustadas acompanhadas de queijos e torradas é um espetáculo. Na cidade de São Paulo há até festivais de sopas! Nos lugares mais gelados, os chocolates quentes dão um toque especial à elegância das pessoas com seus casacos e botas.
Aqui onde moro, na capital do estado de São Paulo, o frio ainda está tímido, com picos de calor no meio do dia, mas a minha fome segue relógio distinto e bastou uma mera esfriada para já disparar o alarme por bolos com café, pães quentinhos e sopas de fubá e couve, bem fumegantes. Enquanto escrevo esse texto, embaixo de uma gostosa manta quentinha, lembrei-me de uma musiquinha antiga que repetia que "comer, comer, é o melhor para poder crescer"... Nem que seja para os lados!