10 de julho de 2026
Articulistas

A pequena Bolinha conheceu a maldade dos homens

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Bolinha parecia estar sempre sorrindo. Sabe aqueles dentinhos inferiores projetados levemente para frente, tão típicos dos lhasas apsos? Pois é. Era assim que Bolinha, sempre abanando o pequeno rabo de um lado ao outro, olhava para os seus “pais humanos”, em São Manuel (69 quilômetros de Bauru). Fotogênica e com os pelos brilhosos e bem cuidados, a cachorrinha adorava os laços coloridos e demais adornos de pedras cintilantes dedicados a ela. Uma princesa de quatro patas.

Há cerca de uma semana, tudo mudou. Bolinha estava irreconhecível. Sem laços coloridos, sem brilhos, sem cores. O olhar carinhoso deu lugar a dois olhos sem vida. Conforme o JC noticiou em matéria feita pela repórter Lilian Grasiela, a cachorrinha foi vítima de um ataque com soda cáustica no último dia 23. Sim. Isso mesmo que você leu. Alguém teve coragem de embebedar a pequena Bolinha no produto extremamente corrosivo.

Além de ficar cega dos dois olhos, iria precisar amputar a patinha e começou a urinar sangue. Em uma decisão tão dolorida para a alma quanto a própria soda cáustica, os “pais humanos” resolveram dar um fim ao sofrimento da cadelinha.

Já em sua última conversa com a família, ao ouvir as palavras de consolo sob a tentativa de dar um pouquinho de calma a ela, Bolinha abanou o rabinho pela última vez. Aquele gesto era um breve agradecimento por tudo, segundo interpretaram os próprios familiares da cadelinha.

O caso está em investigação na Polícia Civil. A esperança é identificar o criminoso para encontrar alguma Justiça (mesmo diante das fragilidades da lei em casos de maus-tratos a animais). O final mais feliz - ou menos triste - desse caso é apenas Justiça, porque respostas nunca serão encontradas. Nada explica uma crueldade assim. E nada nunca explicará.

A verdade é que não há explicação plausível para a maldade. Ela está ali, pura e simples; fria e nua; presente e dolorida. Por falta de espaço (lê-se aqui um eufemismo para a ignorância da minha parte mesmo), não arrisco a discorrer neste breve texto sobre psicopatia e sociopatia. Deixo a missão para psicólogos e psiquiatras. Falo mesmo apenas da capacidade que as pessoas têm em serem más, cruéis, diabólicas.

Mal comparando, refiro-me somente à capacidade das pessoas em entrarem na área de comentários da notícia sobre a abrupta e precoce interrupção da vida do jovem Gabriel Diniz para criticar seu estilo musical. Pior ainda: para dizer que a morte foi merecida por ele apoiar Jair Bolsonaro.

Onde foi parar a empatia deste mundo? Em que curva pegamos a direção oposta do que costumávamos chamar de “humanidade”? Em que ponto perdemos a batalha?

Há uma frase conhecida sobre a aura dos cachorros. Sem um consenso da autoria, a maioria das pessoas atribui o pensamento ao escritor tcheco Milan Kundera, que vive até hoje na França. A frase diz o seguinte: “Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina em uma linda tarde é retornar ao Éden, onde ficar sem fazer nada não era tédio. Era paz”.

Bolinha, infelizmente, conheceu a maldade dos homens. Contudo, certamente, hoje está ao pé de uma colina em uma linda tarde. Não está no tédio. Está na paz.

Está na paz que tanto falta a nós, que continuamos por aqui.

O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia.