| Aceituno Jr. |
| Com várias dívidas, Simone assume ser compradora compulsiva e gostou da ideia do programa |
Você tem mais de 50% da renda mensal comprometida? Se a resposta for positiva, pode se considerar um superendividado. Cidadãos que se encaixam nesta descrição e compram compulsivamente serão o foco do Programa de Tratamento dos Superendividados, prestes a ser executado pelo Procon, em Bauru. A iniciativa já existe em outros municípios e o órgão está à procura de universidades parceiras para viabilizá-la. A expectativa é de que tenha início em agosto deste ano.
De acordo com a coordenadora do Procon, Fernanda de Assis Martins Pegoraro, não adianta apenas ajudar o superendividado e comprador compulsivo a renegociar o débito. Ao limpar o nome, ele voltará a comprar, tornando a situação insustentável. "Só traz prejuízo para quem não tem a pretensão de cumprir o acordo", argumenta.
A ideia é fazer com que os consumidores passem por terapia psicológica e treinamento financeiro. "Nós temos os devedores passivos, que estão nesta situação por um problema pontual, como desemprego ou doença. Existem, ainda, os ativos, que têm alguma patologia. Eles serão o nosso público-alvo", acrescenta.
Só depois de passarem pelo tratamento, os superendividados poderão renegociar os débitos. Os devedores passivos também serão submetidos à parte educacional, que deverá ensinar como organizar as próprias finanças.
O perfil de cada consumidor será identificado assim que eles procurarem pelo Procon e preencherem uma ficha. "A condição independe da situação financeira. Nós temos superendividados mais abastados e aqueles que ganham somente um salário mínimo".
Segundo a coordenadora do Procon, o serviço terá bastante procura, afinal, os superendividados e compradores compulsivos, geralmente, estão em situação de desespero. "Toda ajuda é bem-vinda".
Porém, para que o projeto saia do papel, Fernanda precisa firmar parcerias com universidades, tanto na área de Psicologia quanto na de Economia e afins. Caso alguma tenha interesse, basta ir até o órgão, que fica no Poupatempo (Nações Unidas, 4-44, na região central de Bauru). É possível, ainda, enviar um e-mail para procon@bauru.sp.gov.br.
COMPULSÃO
A operadora de transações de pedágio Simone Faraco Santos, de 43 anos, assume ser compradora compulsiva. Esmaltes, batons, sapatos, lingerie, roupas e joias são os produtos que mais chamam a sua atenção.
Para se ter ideia, a mulher coleciona 50 pares de sapato e chegou a ter 30 frascos de esmalte. "Eu faço a unha no salão e acabo nem usando".
Há dois anos, Simone decidiu mudar de vida. Então, quebrou o cartão de crédito e conseguiu quitar a dívida. "Mas estava tudo muito tranquilo. Eu tenho necessidade de fazer conta", confessa.
Agora, a operadora de transações de pedágio está com o nome sujo. "As festas vão aparecendo e eu preciso de roupa, maquiagem e acessórios novos", tenta justificar o endividamento.
Ela gostou do Programa de Tratamento dos Superendividados e cogitou a possibilidade de participar dele.
Outra mulher, que pediu para ter a identidade preservada, também encarou o projeto de forma positiva. Ela tem uma dívida mensal de R$ 7 mil, valor que ultrapassa o próprio salário. Tudo gasto com roupas, tupperware, empréstimo e consórcio de carro. Há três meses, a mulher decidiu parar de comprar e vender as joias para quitar o débito. "Tomei esta atitude porque, certa vez, o meu filho quis comer lanche e eu não tinha dinheiro. Não dá para viver desta forma", finaliza.