"Nunca conheci quem tivesse levado porrada". Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo", disse o "cara", ele mesmo, Fernando Pessoa. Aliás, tudo o que ele disse é coisa séria. Faz pensar. Publicamente, só mostramos o que em nós brilha, depois de muito bem flanelado, claro. Vitórias, conquistas, viagens, enfim o que nos põe pra cima. Porradas jamais. A coisa funciona assim: na roupa íntima, sabão caseiro; no pódio, cintilantes medalhas. A felicidade gosta de pôr a cara sorridente nas redes sociais.
No face, Dodinha era linda, mais que linda, sensual. Exibia marido bonito, também rico e, de sobra, filhos maravilhosos... Viajava, comprava, exibia, esnobava, selfiava-se. Fazia questão de se mostrar pertencendo ao grupo - com o perdão da palavra - dos que nascem com a bunda pra cima. Nenhuma dificuldade, nas redes sociais, tudo é possível. Nelas, a vida é editada. Tesoura e cola, nada mais é preciso para anunciar uma vida invejável, dessas que ninguém bota defeito. Não bota defeito uma ova! Bobagem, em tempo me corrijo.
A exibição da felicidade alheia gera irritante coceira e a imediata fofocagem. Não se mexe impunemente com a turma dos que nasceram - perdão novamente - com a bunda virada pra baixo.
Foi assim que as amigas anatomicamente desfavorecidas logo lhe colaram na cara o venenoso apelido de "Dodinha lotérica". Depois, a língua maledicente correu solta. Falaram coisas proibidas, terríveis, reais ou inventadas ( como saber?) da Dodinha e do marido bonitão. Gente assim tão feliz leva chumbo, nenhum cristão consegue aguentar. Era torturante engolir pelas orelhas as vantagens que a Dodinha, maldosa e minudentemente, enumerava.
Engraçado, aos desgraçados oferecemos ombro fraterno e ouvidos solidários. O sofrimento alheio sempre nos enterneceu. Agora, aguentar a luminosidade do glúteo alheio é bem diferente. Olhar pra baixo, tudo bem, fazêmo-lo com facilidade; pra cima, torcicola-nos o pescoço.
Antes das redes sociais, o sucesso tinha donos exclusivos: atores, artistas, políticos, gente famosa enfim. Hoje, nas águas democratizadas, todo mundo é peixe nas redes. Claro que democratizar é sempre bom, mas o mesmo não se pode dizer do ato comparativo, sempre perigoso e, até mesmo, broxante. Quem se vê inferiorizado corre o risco de autodepreciação e às vezes de precipitada desmotivação. Para o nosso equilíbrio emocional, o melhor é mudar a direção do olhar.
Olhemos para nós mesmos, o espelho há muito espera a nossa autocrítica.
Olhar-se é o primeiro passo para corrigir-se.
Deixemos a Dodinha e a sua anatomia editada e empinada pra lá.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.