09 de julho de 2026
Regional

Botucatu busca restaurar áreas de recarga do Aquífero Guarani

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 13 min

Malavolta Jr.
A região da Cuesta em Botucatu é conhecida como área de recarga do Aquífero Guarani; projeto vai contar com financiamento do BNDES para restauração ecológica de 200 hectares

O Aquífero Guarani é a maior reserva de água subterrânea da América Latina que atravessa áreas do Brasil, Uruguai e Paraguai. Na chamada "Baixada Serrana", localizada na região de Botucatu, tem uma importância estratégica para a sua preservação: os arenitos Botucatu e Piramboia 'funcionam' como filtro quando ocorre a recarga da água proveniente da chuva, mas a degradação do solo pode tornar esses pontos vulneráveis à contaminação. A restauração ecológica dessas áreas de recargas tem um projeto batizado de Gigante Guarani, que conta com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com planos de restaurar uma área de 200 hectares.

Esse projeto desenvolvido na região envolve entidades de preservação junto com a Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp para restaurar os remanescentes de Mata Atlântica no entorno de áreas de reserva do Aquífero que atinge os municípios de Botucatu, Itatinga, Bofete e Pardinho.

Essa área conhecida como Cuesta, onde predomina um relevo escarpado com morros com um dos lados de suave declive, constituindo "degrau", tem uma formação geológica muito antiga. As formações Botucatu e Piramboia são das idades Triássica e Jurássica, e afloram, no Estado de São Paulo, próximo a borda leste da Bacia Sedimentar do Paraná, abrangendo uma área que vai desde as imediações de Ribeirão Preto, passando por Araraquara, Boa Esperança do Sul, passa por Botucatu, indo até próximo à divisa com o Estado do Paraná. Mas o aquífero, na região de Ribeirão Preto, passa por "rebaixamento" - o volume de recarga é inferior ao volume de água retirado.

Um detalhe importante: o Guarani atualmente com as suas águas subterrâneas possuem uma importância fundamental para o abastecimento nos setores público, industrial, rural e de lazer no Estado de São Paulo.

Pelo menos 200 municípios recorrem a essa água perfurada por poço artesiano para abastecimento das cidades. Entre os municípios que já utilizam o líquido do Guarani estão Ribeirão Preto, Pradópolis, Matão e Boa Esperança do Sul, contribuindo também, decisivamente para o abastecimento de cidades como Araraquara, Bauru, São José do Rio Preto e Presidente Prudente, entre outras. A professora Renata Cristina Fonseca, coordenadora geral do projeto Gigante Guarani, explica que o projeto teve início em 2015 quando uniu todas as associações sócio ambientais com a Unesp para viabilizar a restauração ecológica na área de recarga do Aquífero Guarani. Os recursos são investimento de R$ 3 milhões que vão viabilizar programas de capacitar agricultores de áreas rurais, restauração florestal, pesquisas de restauração e até associação com a produção agroecológica. Os plantios foram iniciados neste mês. 

Objetivo é recuperar mata na Cuesta

A região de Botucatu tem uma importância estratégica para o Aquífero Guarani por situar em área de recarga. É por intermédio dos arenitos que a água da chuva chega aos reservatórios subterrâneos. Esses afloramentos estão localizados na Depressão Periférica Paulista, também conhecida de "Baixada Serrana".

Há fragmentos de Mata Atlântica situado nos enclaves da Cuesta, que precisam de conservação seja da fauna e flora que se estende entre Botucatu, Itatinga, Bofete e Pardinho.

O projeto Gigante Guarani é uma união de várias entidades em busca da preservação da área de recarga. Conforme a professora Renata Cristina Fonseca, do Departamento de Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp de Botucatu, a experiência do Instituto Itapoty e do Giramundo Mutuando viabilizaram as pesquisas e atividades para restauração do aquífero.

No momento foram assinados termos de compromisso com 50 agricultores, além das parcerias com organizações locais, sociedade civil e instituições públicos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai disponibilizar recursos na ordem de cerca de R$ 3 milhões para investimentos variados que vão da pesquisa a recuperação ecológica de áreas.

De acordo com Jorge Martins, o projeto se iniciou com outra configuração pelos dois institutos ligados à Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas Florestais (Fepap) que mapearam as áreas receptivas à contaminação do aquífero. "Há acúmulo de informações porque a Unesp fez muitas pesquisas e orientou um Plano de Manejo apontando quais eram as áreas mais suscetíveis e necessárias para serem protegidas", contou.

Há preocupação com a contaminação da água do aquífero, porque há locais ao longo da Cuesta que requer um manejo diferenciado de preservação e de controle de usos de substâncias potencialmente contaminantes, além da orientação e do cuidado do solo para evitar processos erosivos e degradadores.

"Estamos em um momento em que foram liberados mais de 100 novos agrotóxicos no Brasil. Esse modelo de monocultura muitas vezes usa sistema de pulverização aérea ou uso intensivo, como ocorre com a cultura da laranja que aplica o inseticida no solo para atingir a praga entrando pela raiz da planta. Isso tem muito impacto na saúde humana e esses produtos químicos têm sido usados em terreno da recarga do aquífero. É óbvio que vai ter consequência", explica Martins, que tem um cargo de captador de recursos no Projeto Gigante Guarani.

No levantamento feito pelo projeto constatou que na área de recarga há um mosaico de produção agrícola que vai de pastagem com terrenos degradados, áreas com eucalipto, cana-de-açúcar e laranja.

Martins cita que estudo feito pela Nasa, com dados de 2014 monitorou os aquíferos do mundo inteiro, e apontou especificamente que o Aquífero Guarani é uma reserva sobre-explorada, entrando em nível de rebaixamento e ameaçada de contaminação. "Estão tirando mais água do aquífero do que é reposto, mas falta estudo regular que calcula quanto é a quantidade média de água na recarga. Há um número pesquisado de 163 mil m3 de água por ano, fluxo de recarga. É um valor médio, mas a quantidade de chuva varia e há outros fatores que interferem nisso, até mesmo o plantio na área de recarga. Se há um milhão de pés de eucalipto tirando 30 litros de água por dia na recarga, essa água não estará descendo para o reservatório o que influencia na vazão de rios e outros lençóis freáticos", diz.

De acordo com dados levantados por José Luiz Galvão e Thereza Mitsuno Cocher Gutierre no estudo "Os Aquíferos Botucatu e Piramboia no Estado de São Paulo: novos mapas de isóbatas do topo, espessura e nível de água" o valor máximo obtido de transmissividade para o aquífero Pirambóia foi de 300 m2/dia enquanto para os aquíferos Botucatu e Pirambóia a transmissividade chega a atingir valores de 654 m2/dia.

Ainda conforme os especialistas, a permeabilidade varia de 2 a 3 m/dia só para o aquífero Pirambóia a 3,5 m/dia para o aquífero Botucatu. As vazões específicas para os aquíferos Botucatu/Pirambóia, chegam a atingir 17m3/h/m.

Desde 2009 o Aquífero Guarani entrou em estado que chama "rebaixando" - volume de recarga é inferior ao volume de água retirado. Em Ribeirão Preto, a taxa de retirada já foi 30 vezes o volume de recarga. A região de Botucatu abrange uma área extensa de afloramento e confinada. Veja mais no: (https://giganteguarani.org.br/

Formação rochosa tem relevo agudo

A região da Cuesta é uma formação de relevo escarpado em que um dos lados dos morros tem um suave declive, constituindo "degrau", que se elevam sobre o solo até mil metros de altura, formando grandes paredões, cujo topo não é pontiagudo como as serras, mas sim uma vasta área plana.

O escarpado é uma forma de relevo que envolve elevação aguda, caracterizada pela formação de um penhasco ou uma encosta íngreme.

A palavra Cuesta é traduzida para o português como "degrau", conforme o site do Polo Cuesta. O significado foi introduzido pelo professor francês da Universidade de São Paulo (USP) Emmanuel de Martonne a partir dos estudos, realizados na Espanha, e na década de 30 do século XX, pela Estrada de Ferro Sorocabana, a qual adotou a denominação "Cuesta de Botucatu", para a forma de relevo encontrada na região.

Site Gigante Guarani
Papagaio verdadeiro é apontado em levantamento entre as aves ameaçadas de extinção em área do aquífero na região

Essa área possui um dos maiores reservatórios de água doce e potável do planeta com extensão contínua, conhecido como Aquífero Guarani, ocupando uma área total de 1,2 milhões de km, estendendo-se pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina; 2/3 dessa área está no Brasil, abrangendo os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O geólogo José Luiz Flores Machado desenvolveu um amplo estudo divulgado em 2006 que aponta que não se trata de um único aquífero, mas de um sistema de aquíferos. A maior parte da área ocupada desse reservatório de água está no subsolo do centro-sudeste brasileiro.

Iniciativa de preservação tem início em 2006 em Botucatu

Divulgação
Plantio de mudas faz parte do projeto de recuperação de áreas

A professora doutora Beatriz Stamato e o pesquisador Rodrigo Machado explicam que o projeto Gigante Guarani teve início no ano de 2006 por iniciativa do Instituto Giramundo Mutuando a partir do apoio da WWF Brasil, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Fundação UNI e da Prefeitura de Botucatu.

Posteriormente, em 2008, foi encampado pelo Instituto Itapoty de Itatinga e por um conjunto de outras organizações da sociedade civil reunidas no que foi denominada de "Rede Ecótono da Cuesta" (uma menção a transição de biomas mata atlântica e cerrado), com a intenção de articular um programa maior na região.

Outros quatro projetos foram realizados entre 2009 e 2014 pelo Institutos Itapoty e Giramundo, em parceria com a Fundação do Instituto de Biociências e o grupo de educação ambiental do Departamento de Educação da Unesp, com as parcerias dos municípios de Botucatu, Itatinga e Pardinho.

No ano passado, sob a coordenação da Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf) deu novo impulso com o  apoio do BNDES. "A vinda da Fepaf para a rede de organizações envolvidas no Programa Gigante Guarani fez toda a diferença, trouxe toda a expertise da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu e da própria fundação com sua excelente capacidade de gestão. O projeto restaurará 200 hectares de floresta de Mata Atlântica na região e auxiliará os municípios envolvidos na elaboração de seus planos de recuperação da Mata Atlântica", explicaram Beatriz e Rodrigo Machado. 

Área possui animais em extinção

Um dos desafios do projeto é criar corredores de biodiversidade para a preservação de aves e mamíferos. O desmatamento deixou manchas de Mata Atlântica ao longo do trecho de recarga do Aquífero Guarani. Esses pequenos fragmentos de cobertura vegetal podem não resistir e enfraquecer ao longo do tempo se não manejados de forma correta. 

Estudos apontam que há espécies ameaçadas de extinção. Numa pesquisa recente constatou que entre os animais ameaçados estão onça-parda, jaguatirica, tamanduá-bandeira, lobo-guará, lontra, paca.

De acordo com a médica veterinária especialista em animais silvestres Juliana Griesi, a área tem uma riqueza de espécies elevada se comparada com outras áreas do interior paulista. "Frequentemente identificamos a presença de onça-parda e outros felídeos silvestres, tamanduás, tatus, veado, capivara, lontra, irará, cutia, paca, mão-pelada, lobo-guará, raposinha-do-campo, cachorro-do-mato, macaco-prego, quati entre outros animais incluindo pequenos mamíferos (marsupiais e roedores)", declara.

Entre as aves, foram identificadas na região quase 300 espécies, algumas ameaçadas de extinção como o urubu-rei, muitos passeriformes e não passeriformes de variada beleza. "É importante nos conscientizarmos que apesar de apenas algumas dessas espécies serem classificadas como ameaçadas de extinção, consideramos que todas estão, porque seu ambiente está ameaçado e sem as condições ambientais que dão o suporte para estes animais se alimentarem, reproduzirem", conta Juliana.

Outro impacto nessa região de campo é a caça, uma atividade proibida ainda presente que contribui para agravar a situação da fauna.

O especialista em monitoramento de fauna Osório do Nascimento, que já participou de pesquisas na área, explica que a conservação dessas propriedades é importante para a preservação das aves, mas a fragmentação das matas prejudica manter as espécies.

O Projeto Gigante Guarani faz esforço para manter nessa região corredores de biodiversidade. "O que a gente tem visto é a devastação. Cada vez tem menos áreas preservadas. O problema é a fragmentação dos ambientes. Se há uma área de floresta contínua, bem preservada, os animais encontram condições para sobreviverem. Se há derrubada de mata, passa a escassear os alimentos para aves. Com o tempo, ela passa a dividir em manchas de vegetação menores e corta a conexão das áreas. Os bichos passam a não encontrar mais os alimentos. Com isso, ele vai procurar em outros lugares. Isso ocorre com as aves de pequeno porte, dos quais sensíveis a essa fragmentação", explicou Nascimento.

Ele cita que é muito importante o projeto de reflorestamento que vem sendo proposto, porque uma mata recuperada ajuda a recuperar as nascentes. "Um local em campo aberto, a água vai embora e não infiltra no solo, prejudicando as nascentes. Se tem uma floresta em pé, a chuva que atinge as copas das árvores amortece o impacto e vai ter tempo de se infiltrar no solo. A floresta é produtora de água e mantém a fauna em pé, porque muitos se alimentam de fruta e semente. É um círculo virtuoso", declara.

Proposta incentiva mudança do modelo agrícola a produtores 

O projeto busca também alternativas econômicas aos produtores rurais que participarem da adequação ambiental na área de recarga do aquífero. O objetivo é incentivar a mudança do modelo agrícola nessas regiões, com uma transição de uma agricultura "química" para agricultura de "base ecológica".

A pesquisadora em geociências do Serviço Geológico do Brasil (CPRM-SGB), a geóloga Ana Paula Justo e o professor doutor Rodrigo Machado Moreira, do Instituto Giramundo Mutuando e pesquisador Iinterssan/Unesp, explicaram em entrevista por WhatsApp ao JC que a sociedade quer o produto orgânico e este é um mercado que só cresce no Brasil e no mundo, mas muitos produtores ainda não descobriram isso, assim como técnicos agrários.

A segunda alternativa, citada pelos pesquisadores, é o agricultor que participar na restauração das áreas se tornar participante da cadeia da restauração florestal, com a coleta, beneficiamento e venda de sementes e mudas. E por último, há possibilidades de geração de renda com a venda dos créditos de carbono dessas áreas restauradas, um mercado ainda incipiente no Brasil, mas que está crescendo.

"Dependendo da área restaurada e do perfil do agricultor, esse processo pode ser feito por meio de Sistemas Agroflorestais, que além de árvores, produzem alimentos de alta qualidade de todo tipo, de culturas anuais a frutas, que melhoram a autonomia das famílias em relação ao alimento de qualidade, podendo o excedente ser vendido no mercado local", explicaram.

Guarani é um sistema de aquíferos

A geóloga Ana Paula Justo explica que as primeiras estimativas realizadas nas décadas de 80 e 90 compreendiam que o volume de água subterrânea armazenado no aquífero Guarani era contínuo e homogêneo. No entanto, o avanço nos estudos vem mostrando um sistema complexo, caracterizado por heterogeneidades em escala regional.

As variações locais quanto às unidades hidrogeológicas condicionam comportamentos distintos das linhas de fluxo da água em subsuperfície, o que reflete na interconectividade, quantidade e qualidade da água subterrânea armazenada. "Por exemplo, foi constatado que a salinidade é maior nas porções mais profundas e de maior confinamento do sistema, dada a maior interação fluído-rocha; quanto comparadas às áreas onde o aquífero aflora. Mas isso não implica necessariamente em um recurso hídrico menor do que estimado nos estudos iniciais, apenas reflete o progresso no conhecimento das especificidades do sistema. O esforço conjunto de estudos técnico-científicos em desenvolvimento prevê para os próximos anos a formulação de um novo modelo de circulação da água subterrânea do Sistema Aquífero Guarani, mais realista e comprometido com a gestão deste recurso de inestimável valor. Resumindo, há mesmo muita água", explica.

A professora doutora confirma que o aquífero é um sistema de aquíferos e a acumulação de água ocorre por  longo ciclo hidrológico. "No caso dos aquíferos porosos, a porção da água infiltrada no solo inicia sua migração por gravidade em meio aos poros da zona não saturada de rochas arenosas aflorantes. Ao atingir o nível freático, já no contato com a zona saturada em subsuperfície, o 'transporte' da água passa a obedecer a linhas de fluxo que seguem para as porções mais confinadas do aquífero, onde a água encontra as condições mais propícias para ser acumulada", explica.