09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sorria, o Grande Irmão é você


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Quando se caminha em passos mais vagarosos ou ainda muito apressadamente, é comum de se deparar ao longo do percurso com uma das máquinas de maior impacto na vida da sociedade do século XXI: câmeras. Estas máquinas de filmagem possibilitaram o aparecimento, a estruturação e a consolidação dos moldes em que se inseriu a sociedade de massa no tumultuado século que passou.

A partir da enorme onda de difusão de imagens e alterações na ordem social, surgiu uma espécie de homem ligado intimamente por cabos e conexões, como o renascimento de Neo, no filme Matrix, e os personagens em futuro próximo de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo Novo. Era a sociedade do espetáculo que despontava entre nós.

Em 1948, o escritor e jornalista George Orwell inverteu os algarismos do ano e lançou 1984. Esse livro trazia uma sociedade alicerçada na perda da individualidade, sob o total domínio do Estado. Cada local do país estava constantemente sob os olhos do Grande Irmão. Orwell foi tachado de louco; o tempo, porém, demonstrou que era ele quem estava com a razão.

O que é hoje imensa parte das grades televisivas, senão um amontoado de câmeras ligadas que filmam pessoas confinadas em locais, no mínimo, esdrúxulos sem nenhum propósito claro. Reality show é O Grande Irmão que passa ao vivo diante de nós, e nós gostamos do que vemos. Será?

No ano de 1975, o filósofo francês Michel Foucault falava dos mecanismos e sistemas penais ligados à vigilância e a punição presentes no Estado. Nas ruas, vemos uma multiplicação sem igual na quantidade de medo e câmeras de segurança, instaladas por pessoas de toda sorte. O povo clama por segurança, sem que se questione a legalidade e a ética de se ter filmadoras espalhadas por todos os cantos. Quando passo pelos caminhos cotidianos, me sinto vários vezes invadido pelo olho mágico purificador e invasivo das múltiplas câmeras, espalhadas no Big Brother da vida real. Estamos nos acostumando com isso. E a justificativa é sempre muito responsável: são para a nossa segurança e bem-estar.

Ao que parece, passamos por um processo de transformação contínuo. De uma sociedade Disciplinar, como disse Foucault, passamos para um modelo de sociedade apontada por Gilles Deleuze como sociedade de Controle. Estamos em transição entre uma maneira de aprisionamento completo, para uma espécie de controle aberto e constante. Daqui por diante, passaremos não apenas a controlar nossos próprios atos, mas também a controlar as atitudes que não nos parecem favoráveis dos outros, nos outros. Sujeitos em processo de assujeitamento, posando para câmeras em aguardo. Em outras palavras: liberdade condicional; pode ir à China, mas sem ser vigiado, à esquina.


Lauro Neto é estudante de Jornalismo da Unesp e Letras Português / Espanhol da USC