09 de julho de 2026
Geral

Cigarros produtos de contrabando se tornam agroquímico sustentável

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Aceituno Jr.
Pesquisa do curso de Química da Unesp de Bauru transforma cigarros em produtos sustentáveis
O professor Gilbert Bannach explica as vantagens do hidrogel

Na natureza, nada se perde, tudo se transforma. No laboratório da Unesp, a mesma premissa tem sido colocada em prática. Pesquisa pioneira de dois doutorandos do curso de Química da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru e de um professor da disciplina tem transformado cigarros contrabandeados, apreendidos pela Delegacia da Receita Federal (DRF) de Bauru, em produtos sustentáveis.

Após cerca de nove meses de estudo, eles desenvolveram, por meio do tabaco/nicotina, um hidrogel agroquímico que é solúvel em água e não provoca danos ao meio ambiente. Na mesma pesquisa, outro produto é testado e dá destino aos filtros dos cigarros, transformados em um material nobre fotopolimerizado e que pode ser usado em impressoras 3D e até na fabricação de tecidos de guarda-chuvas, amortecedores de tênis, entre outros.

A pesquisa da Unesp de Bauru, protagonizada pelo professor Gilbert Bannach e pelos doutorandos Rafael Alarcon e Caroline Gaglieri, foi selecionada, entre outras iniciativas no Estado, e obteve financiamento de parceria entre o Banco Santander, a Receita Federal e Agência Unesp de Inovação (Auin).

Agora, o grupo une esforços para patentear os dois experimentos.

A PESQUISA

A pesquisa teve início em agosto. Até agora, o grupo utilizou cerca de 20 maços disponibilizados pela DRF. "Pesquisas levam em média 10 anos. Em nove meses, conseguimos ótimos resultados. O agroquímico à base de nicotina não é novidade, a inovação está processo de extração e transformação, muito mais eficiente que o usado hoje. E o hidrogel é 10 vezes mais potente que as receitas comuns", comenta o professor Gilbert.

"Ele segue seus princípios químicos naturais e não é organoclorado como os comerciais, portanto, não agride o meio ambiente", completa o professor, explicando que as plantas (hortaliças, verduras e legumes) conseguem metabolizar e eliminar nicotina, que atinge em cheio apenas insetos, como, por exemplo, os pulgões.

Fotos: Aceituno Jr.
Rafael Alarcon destaca que o produto criado ainda reduz os riscos de desastres ambientais
Caroline Gaglieri frisa que reaproveitamento do cigarro evita poluição e ônus aos cofres públicos

Doutorando em química, Rafael Alarcon lembra ainda que o estado físico do produto evita desastres ambientais, como os que ocorrem com produtos líquidos em rodovias ao longo do transporte. "Ele é sólido e fácil de transportar", reforça. "E o solvente que utilizamos é potente, mas não é tóxico. O processamento do hidrogel também não gera resíduo e as fontes de energia não são térmicas. A luz ultravioleta é usada", acrescenta Rafael.

Produtos organoclorados usados em lavouras são criticados por se acumularem no organismo dos animais humanos por gerações, causando malefícios na saúde.

ECONOMIA

Além de crime, o contrabando de cigarros é oneroso ao Estado. Por mês, a Receita Federal chega a desembolsar mais de R$ 33 mil somente com a armazenagem e destruição dos produtos proibidos no Brasil. No ano passado, 6 milhões de maços foram apreendidos pela unidade de Bauru.

A pesquisa, além de dar um fim sustentável ao material, que geralmente é incinerado, pode gerar economia aos cofres.

Cada 1 quilo do hidrogel produzido pela equipe tem custo de produção de até R$ 1,00. O fotopolímero ainda não teve o preço mensurado, mas deve estar bem abaixo do praticado no mercado.

"Trata-se de um projeto econômico viável, interessante e que pode gerar benefício nas apreensões feitas em todo o País. É importante que empresas e indústrias se interessem por ele", afirma o delegado da DRF de Bauru, Luiz Carlos Aparecido Anézio.

CONCLUSÃO

O grupo de pesquisa considera o estudo 90% concluído. Nos próximos dias, a concentração de esforços deve recair sobre a aplicação do defensivo e teste da proporção de uso.

"Trabalhamos para agregar valor a um produto que não teria serventia e seria descartado, gerando poluição ao meio ambiente e ônus para os cofres públicos. Agora, ele é matéria prima. Nossa expectativa com a pesquisa é de transferir essa tecnologia em beneficio da população", finaliza a doutoranda Caroline Gaglieri.

Outras pesquisas da Unesp

Além da pesquisa bauruense, a Unesp possui ainda outras propostas inovadoras para o reúso de cigarros apreendidos na Receita Federal. Em Itapeva, o desempenho físico-mecânico de painéis particulados produzidos com adição de resíduos de cigarros e resina à base de óleo de mamona foram analisados. Ainda por lá, outra solução: o reúso do tabaco transformando os resíduos em adubo, conhecido como biochar. Na Unesp de Botucatu, um estudo exploratório para obter maior valor agregado com a reciclagem também foi apresentado.

Em Dracena, a Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas junto à Cooperativa dos Produtores da cidade desenvolveu solução inovadora para a produção de mudas de eucalipto.