08 de julho de 2026
Geral

Canudo próprio vira moda sustentável

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Samantha Ciuffa
A professora Letícia Camargo Trevisan, de 24 anos, viu um vídeo de uma tartaruga marinha com um canudo de plástico no nariz e nunca mais usou o item descartável

Práticos, portáteis e, acima de tudo, sustentáveis, os canudos de vidro, bambu ou inox caíram nas graças dos bauruenses. Do ano passado para cá, diversas pessoas optaram por levar o próprio utensílio para qualquer lugar. Também pensando em preservar o meio ambiente, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) aprovou, no último dia 13, a proibição destes itens produzidos através do plástico. No município, o vereador Roger Barude (PPS) incentiva o projeto "Canudo que Salva" (leia mais abaixo).

A jornalista Vitória Palmejani Augusto, de 23 anos, decidiu dispensar o cilindro de plástico já há algum tempo. No final do ano anterior, uma conhecida começou a vender produtos alternativos e ela comprou um deles, feito de inox. 

Letícia se preocupa com o ecossistema marinho

Em seguida, foi à praia. "Tomei caipirinha e água de coco com o novo utensílio. Muita gente me abordou, perguntando onde havia adquirido", acrescenta.

Além do canudo, Vitória também comprou uma escova, que faz a limpeza do produto, e uma bolsa personalizada, utilizada para guardar ambos os itens. Desde então, os leva para bares, festas e afins.

CONSCIENTIZAÇÃO

Assim como Vitória, Ariane Frassato Generozo, de 24 anos, começou a evitar canudinhos de plástico tão logo tomou conhecimento do prejuízo causado ao meio ambiente, quando o material é descartado de forma irregular.

Então, descobriu que uma conhecida vendia produtos alternativos e também comprou um utensílio de inox. "Paguei R$ 20,00 no kit, composto por canudo, escovinha e bolsa personalizada", frisa a jornalista.

Para ela, valeu a pena. "É uma ação isolada, mas já ajuda. O kit é prático e consigo levar para qualquer lugar. Fica dentro da minha bolsa", complementa.

A professora Letícia Camargo Trevisan, de 24 anos, concorda com a jornalista. "Eu sou formada em Biologia e a minha grande paixão é a tartaruga marinha. Certa vez, vi um vídeo no qual uma pessoa retirava um canudo de plástico do nariz deste animal. Fiquei chocada e nunca mais utilizei o produto. Agora, só cilindro de aço".

VIROU LEI

No último dia 20, uma imagem chocante rodou o mundo: um urso polar faminto revirava o lixo, a 800 quilômetros do seu habitat natural, em Norilsk, no Ártico Russo.

O caso não é isolado. Muitos outros animais já chegaram a se alimentar do que o ser humano descarta de forma irregular e o plástico está entre os principais produtos.

Em vista disso, a Alesp aprovou, no último dia 13 deste mês, um projeto de lei que proíbe o fornecimento de canudinhos, feitos deste material, em estabelecimentos públicos do Estado de São Paulo.

O projeto, de autoria do deputado estadual Rogério Nogueira (DEM), envolve restaurantes, padarias, bares, hotéis, clubes noturnos, salões de dança e eventos musicais de qualquer espécie.

SUBSTITUTOS

Pelo texto, tais locais devem substituir o cilindro de plástico por versões em papel reciclável, material comestível ou biodegradável. O governador João Doria (PSDB) ainda precisa sancionar a medida. Conforme informações da assessoria de comunicação da Secretaria de Governo do Estado de São Paulo, não há previsão para tanto.

Na Capital, a proibição foi aprovada pelo Legislativo em abril, mas falta a validação do prefeito Bruno Covas (PSDB). Apesar disso, bares e restaurantes já têm buscado opções para substituir a versão tradicional. 

Projeto local tem baixa adesão

No final do ano anterior, o vereador Roger Barude (PPS) apresentou um projeto de lei que visava proibir a distribuição de canudos e copos de plástico em bares e restaurantes do município.

Apesar de estar em acordo com medidas tomadas no mundo inteiro, o texto esbarraria na falta de empresas responsáveis pela fabricação de cilindros de papel e copos de outros materiais - de preferência, biodegradáveis -, além de fiscalização pela prefeitura. Foi, então, que surgiu a campanha "Canudo que Salva".

Como o JC já noticiou, o parlamentar retirou o projeto de lei da Câmara e, em seguida, anunciou como funcionaria a iniciativa, que ainda possui uma proposta beneficente.

Com apoio da Plasútil, a campanha recebeu 2 mil lixeiras, destinadas ao recolhimento dos canudos. Elas seriam distribuídas em bares, restaurantes, lanchonetes, hotéis, clubes, entre outros. Por enquanto, 20 estabelecimentos aderiram à proposta, incluindo o Jornal da Cidade.

Já a Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC) recolhe os cilindros plásticos e vende para cooperativas ou empresas de reciclagem, ficando com toda a verba arrecadada, como forma de ajudar na manutenção da entidade.

De acordo com Barude, a população precisa de conscientização, não de proibição. "Só que a procura está devagar. Contudo, estou trabalhando para buscar parceiros que instalem essas lixeiras, como a própria Prefeitura de Bauru".

SERVIÇO

Os interessados em ter, gratuitamente, uma das lixeiras poderão entrar em contato com a ABCC, pelo (14) 3222-3808. A instituição atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h30, e fica na rua Nóbile Di Piero, 32, no Centro.

Estratégia global

O debate sobre o lixo tem ganhado cada vez mais visibilidade em todo o mundo. O problema requer o engajamento da sociedade para propor mudanças relevantes. O ecossistema marinho afetado pelo plástico, por exemplo, inclui as praias, o mar aberto, as geleiras e as profundidades oceânicas.

Anualmente, aproximadamente 9 milhões de toneladas de resíduos do tipo chegam aos oceanos e, segundo diferentes estimativas, poderiam permanecer no ambiente marinho por até 450 anos.

O Brasil é um dos países que mais gera lixo plástico em todo o mundo, conforme dados da organização ambiental WWF Internacional. Além disso, cientistas encontraram microplástico em centenas de espécies aquáticas, afetando, também, a cadeia trófica: mais da metade delas acaba em nossa mesa. Logo, o consumo consciente e a redução do uso do plástico fazem parte de uma estratégia global. Inúmeros governos, cidades e estabelecimentos se engajam na proibição do canudo produzido através deste material. O Rio de Janeiro foi a Capital pioneira neste sentido. Pelo menos, cinco Estados e 30 municípios brasileiros também aderiram à causa (com informações do Estadão Conteúdo).