| Tomaz Silva/Agência Brasil | |
| Familiares e amigos participam do sepultamento do cantor e compositor João Gilberto, no cemitério Parque da Colina, em Niterói. |
O adeus a João Gilberto foi nos moldes que o gênio certamente aprovaria. Uma cerimônia simples, com a presença apenas de familiares e amigos próximos, em um cemitério repleto de árvores floridas, com o silêncio quebrado somente pelo canto dos pássaros. O local escolhido para o sepultamento, nesta segunda-feira (8), foi o Cemitério Parque da Colina, em Niterói, onde a família possui jazigo.
Após uma prece entoada por um de seus sobrinhos, a filha do músico, Bebel Gilberto, bastante emocionada, deu adeus e agradeceu ao pai, à beira da sepultura. João Gilberto foi sepultado ao som de aplausos, como os quais ele se acostumou a ouvir ao fim de cada um de seus shows, ao longo de toda a vida.
A filha, que veio dos Estados Unidos, onde mora e trabalha, especialmente para o velório e sepultamento do pai, falou ao final, agradecendo a ele pelos ensinamentos musicais. Lembrou o homem carinhoso, voltado à família e destacou sua importância na música brasileira.
“Papai inventou um som. Uma marca. Isso é eterno, vai ficar para sempre. Ele ensinou muita gente, inspirou muitos músicos. Ele me fez aprender a cantar, a ser quem eu sou. Ainda bem que a gente está neste lugar tão lindo, cercado da família e de vocês, que estão nos apoiando tanto. Muito obrigada a todos. Papai era luz. Pura música. Muito gente boa. A pessoa mais linda do mundo”, declarou Bebel, após a cerimônia.
Ao lado dela estava sua meia-irmã, adolescente Luísa, e Maria do Céu, a última companheira do cantor. Apesar de aberto ao público, o enterro foi discreto e não teve a presença de artistas conhecidos.
Bebel é filha de João com a cantora Miúcha, morta no ano passado e Luísa, fruto do casamento com Cláudia Faissol. A moçambicana Maria do Céu Harris morava com ele no fim da vida.
O primogênito João Marcelo, filho da cantora Astrud Gilberto, está nos Estados Unidos renovando documentos e não pôde deixar o país, segundo seu advogado, Gustavo Miranda.
VELÓRIO
O velório, em caixão aberto, terminou às 14h20, com a música "Chega de Saudade",no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Cerca de cem amigos e familiares encerraram a cerimônia cantando a música de Tom Jobim, que foi imortalizada por João Gilberto há 61 anos, em 1958.
Em seguida, aplaudiram o músico, que morreu na tarde de sábado (6), aos 88 anos, em seu apartamento no Leblon. Antes, uma cerimônia religiosa de meia hora foi aberta por músicos e cantores da orquestra do Theatro, que executaram algumas canções, como Bachianas Brasileiras n.4
Algumas horas após a morte do cantor, ainda no sábado, João Marcelo disse em uma rede social que "os abutres já estavam se aproximando do apartamento" de João Gilberto. "Não haverá shows nem caixão aberto (a pedido dele), e eu peço que esses idiotas que estão atacando a mim, Maria e a minha família vão logo à merda e mostrem algum respeito", escreveu em inglês.
Cerca de uma hora e meia antes, ele havia anunciado a morte do pai e o homenageado. "Meu pai faleceu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter sua dignidade à luz de perder sua soberania. Agradeço à minha família (o meu lado da família) por estar ali para ele", afirmou.
João Marcelo e Bebel estão envolvidos em disputas judiciais desde 2017, quando ela iniciou um processo de interdição do pai, diante de sua idade avançada e situação financeira - ele chegou a ser despejado do apartamento do Leblon, na zona sul do Rio. Recentemente, Bebel também havia pedido proteção judicial contra o meio-irmão, que a acusara de estar roubando o dinheiro do pai.
João havia completado 88 anos no início do mês de junho, quando apareceu em uma rara fotografia publicada por sua nora, mulher de João Marcelo, nas redes sociais. Ele não dava entrevistas e não recebia ninguém em casa, a não ser familiares.