08 de julho de 2026
Nacional

Perto de 0°C, SP tem queixa sobre abrigo, 'coberta' de papelão e solidariedade

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 2 min

Às 8 horas do sábado que antecedeu a noite mais frio do ano, dona Odete já estava de pé colocando 40 quilos de arroz e 100 quilos de frango na panela. Junto a outros voluntários, a aposentada de 64 anos começava ali a cozinhar as 800 refeições que seriam distribuídas mais tarde para moradores de rua da região central de São Paulo.

A ação solidária fez a diferença em uma madrugada em que a média dos termômetros paulistanos chegou a 5 °C, menor registro em três anos. Em alguns bairros, porém, como Marsilac (zona sul), o frio chegou à marca de -0,1°C. Moradores se queixam da qualidade dos abrigos públicos e Prefeitura diz que não faltam vagas, mas admite que há problemas.

A reportagem esteve nas ruas de São Paulo neste domingo (7), e viu a situação daqueles que não foram recolhidos para abrigos públicos. Todos os espaços longe do chão gelado, como os deques do Largo de São Bento, eram opção. E houve casos como o do gari Geraldo, de 59 anos, que na última madrugada dormia dentro de uma "barraca" feita com caixas de papelão.

Desde que perdeu o emprego e as economias, há dois anos, está nessa situação. "Eu só queria uma oportunidade. A gente só consegue mudar pelo trabalho e tenho esperança de que ainda vou conseguir", diz. Ou o caso do soldador Clodoaldo, de 34 anos, desempregado e dependente de álcool, que só queria uma passagem para sua cidade natal, no Mato Grosso do Sul. "Minha preocupação não é o frio, é o amanhã."

Solidariedade

Às 22h, a reportagem encontrou dona Odete indo para o segundo turno do trabalho: a entrega das quentinhas. "Faço questão de vir entregar porque é muito bom ouvir cada agradecimento deles. Minha família cresceu participando desse projeto, eu não falto nenhum sábado", conta ela, que, junto a mais de 200 voluntários, integra a ONG Anjos da Noite, que presta atendimento à população de rua no entorno da região da 25 de Março e São Bento.

Há mais de 20 anos no projeto, Dona Odete é acompanhada todos os sábados pelo filho Marcos, de 43 anos, e pelo neto Jorge, de 16. "O menino, a gente traz desde que tinha 4 meses de idade. Ele era bebê e vinha com a gente. Hoje, os amigos podem chamar ele para sair sábado à noite, mas prefere vir aqui", diz, orgulhosa.