09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Roberto Purini

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 8 min

Arquivo pessoal/Reprodução
Roberto Purini na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo

Nascido em Poloni, na região de Rio Preto, Roberto Purini veio para Bauru ainda na juventude e aqui se estabeleceu, concebeu a família e desenvolveu aquelas que seriam suas marcas. A primeira delas é o programa 'Ave Maria', apresentado no rádio e na TV há 61 anos, praticamente ininterruptos, veiculado atualmente na TVC (canal 13 da Net, às 6h e às 18h). A segunda é a política.

Ele foi vereador por dois mandatos e deputado estadual por mais cinco, totalizando mais de 30 anos de vida pública por Bauru e região, além de ter concorrido duas vezes a prefeito. Aos 82 anos, lembra-se dos principais momentos na política, do amor pelos familiares e diz que ainda acompanha os acontecimentos do País, mas de maneira distante. Atualmente, passa boa parte do tempo em casa, de onde aprecia a vista do apartamento nos Altos da Cidade e se recorda das obras e recursos que ajudou a trazer.

Seu filho mais novo, Renato Purini, seguiu seu exemplo e teve atuação política: foi vereador por três mandatos, presidente da Câmara Municipal e vice-prefeito. Concorreu a prefeito em 2016. Ficou na terceira colocação. Também foi presidente do MDB até o começo deste ano.

Arquivo pessoal/Reprodução
Roberto Purini na companhia de Ulysses Guimarães e Waldir Pires, na campanha presidencial de 1989

Durante a entrevista, Roberto Hilvo Giovani Purini fala com orgulho da família e dos quatro filhos, da esposa Maria Helena e do seu sobrenome, lembrando a origem de 'Purini' na Itália, que vem do latim 'púrpura' e remete à pureza. Na política, manteve contato próximo com o governador Orestes Quércia, de quem foi líder na Assembleia Legislativa e líder de bancada. Conviveu ainda com outras personalidades históricas nacionais, como Franco Montoro e o deputado federal Ulysses Guimarães, presidente da Constituinte de 1988. Purini foi relator da Constituinte paulista. Foi ainda membro da comitiva de Bauru que foi ao Japão assinar a parceria de cidade-irmã com Tenri, em 1970. Ele gosta de escrever poemas, muitos com base em fatos que aconteceram na realidade. Vários já foram publicados na seção 'Ao Pé da Letra', aos sábados, no JC.

JC - Como foi a sua infância e juventude?

Purini - Eu nasci em Poloni, hoje um município, na região de São José do Rio Preto. Minha mãe faleceu muito cedo, eu tinha apenas 3 anos de idade e me lembro bem pouco dela. O que eu lembro é quando ela foi operar e, depois, no dia do falecimento. Fui criado por uma madrasta, que era farmacêutica formada e muito rigorosa, e pelo meu pai, que era italiano e veio para cá. Ele trabalhava na farmácia, mas sem a formação, era prático. Tive quatro irmãos, infelizmente todos já falecidos. Em Poloni fiz primeiro e segundo ano de grupo, como era conhecido antigamente. Aí, depois, o terceiro e quarto ano e o ginásio fiz em Monte Aprazível. Foram dois anos no externato e dois anos no internato de Dom Bosco. Nessa época, estudaram lá o Clodovil Hernandez (estilista que depois foi deputado federal). Fiz o curso Normal em São José do Rio Preto e estudei com o Beto Carrero (João Batista Sérgio Murad), com quem tive um jornal voltado aos normalistas da época, chamado O Normalista - Órgão Oficial dos Legionários do Progresso.

JC - E sua vinda para Bauru, como foi?

Purini - Eu queria fazer medicina, só que para isso tinha que ir para São Paulo e não seria possível. Fui, então, para Lins tentar odontologia, mas acabei parando em Bauru, onde estudei letras anglo-germânicas na Faculdade de Filosofia (atual USC) e depois fiz direito na Faculdade de Direito (atual Instituição Toledo de Ensino - ITE). Aí, fui professor de português e dei aulas em escolas estaduais, na ITE e na Fundação Educacional de Bauru, que depois virou a Unesp. Foi nessa época que acabei entrando na política. O meu patrão era o Horácio Alves Cunha, dono da antiga Rádio Terra Branca, e me falou para disputar a vereador.

Vinicius Bomfim
Roberto Purini ao lado da Bíblia, seu livro preferido

JC - Já são 61 anos de programa, então?

Purini - Sim, comecei e fiz mesmo quando era vereador e depois como deputado. Na Rádio Terra Branca, mas depois teve um período em que a rádio foi arrendada para uma igreja evangélica e acabei tendo que sair. Uma semana depois, apareceu a oportunidade de fazer o programa em Ibitinga e depois em Bariri. Aí, quando inaugurou a TVC em Bauru, o Natan Chaves e depois o Carlos Perrenoud me abriram essa possibilidade e comecei a fazer na TV, onde estou há vários anos e sigo até os dias atuais. Eu sou católico, minha família também. Fiz muita coisa na minha vida, mas esse programa é uma missão, até me emociono em falar, porque permanecer tanto tempo é uma dádiva. Sempre começo com um texto da Bíblia e depois uma reflexão. Não repito programas, é sempre algo novo mesmo.

Arquivo Pessoal/Reprodução
Ao tomar posse como vereador pela primeira vez, cumprimentado pelo juiz eleitoral Francisco Giglio

JC - Na política, como foi o começo?

Purini - Entrei na política a convite do Horácio Cunha. Fui para o PTB e não me elegi a vereador, com 285 votos, em 1968, fiquei como primeiro suplente. Na segunda vez, fui eleito em 1972 com 1.137 votos e reeleito com 2.896 votos. Já para deputado, a maior votação foi de 62.805 na quarta vez em que fui eleito. Ganhei uma eleição de prefeito, mas não levei, em 1976. O Osvaldo Sbeghen acabou entrando porque, na época, o sistema era diferente e os partidos tinham mais de um candidato e prevalecia a soma das votações. Eu obtive mais de 24 mil votos. Mas aquilo ficou na cabeça do povo e acabei sendo candidato a deputado estadual em 1978 e fiquei até 1998. Fui líder do governo do Orestes Quércia, relator da Constituinte paulista. Sou filiado ao MDB até hoje. Acho que sou umas das pessoas há mais tempo filiado no mesmo partido.

JC - Como vereador e depois como deputado, quais momentos considera os mais marcantes?

Purini - A definição de política como ciência, arte, técnica, estratégia e virtude do bem comum foi o que eu sempre procurei. Eu não sigo isso de esquerda ou direita: eu era o representante do povo, fazia aquilo que fosse melhor. Fui vereador primeiro com o Alcides Franciscato e depois com o Edmundo Coube de prefeito. Nunca fui inimigo de ninguém. Você tem adversários de momento e não inimigos. Nos oito anos que fiquei na Câmara, procurei trabalhar pelo bem comum. Ajudei os dois prefeitos e, quando ganhei mas não levei a disputa de prefeito, cinco dias depois fui na prefeitura e conversei com o Edmundo: falei que continuava à disposição para os projetos importantes que o governo precisasse mandar. Ele disse que não poderia esperar outra coisa. E é assim que sempre procurei trabalhar. Foi até bom que o Osvaldo Sbeghen tenha ganhado como prefeito, porque teve o Franciscato e o Abrahim Dabus para ajudar, um como deputado federal e outro como deputado estadual. Sobre essa situação de ter aliados e adversários, eu até preferia muitas vezes lidar com o adversário, porque ele você sabe que está do outro lado, mas o seu aliado você acha que está do seu lado e muitas vezes te apunhalava pelas costas. Sofri com isso algumas vezes.

JC - Com o Abrahim Dabus o senhor conviveu bastante na Assembleia depois e manteve a amizade depois?

Purini - Tive muita amizade com ele, fomos deputados estaduais na mesma época, mesmo sendo de partidos diferentes, eu no MDB e ele na Arena, fomos amigos e lutamos juntos por muita coisa de Bauru. Dois dos meus quatro filhos nasceram das mãos dele, que era médico. No dia em que ele faleceu, eu estava em Campinas, mas fiz questão de vir para o velório, fiquei muito chateado, porque ele foi um amigo mesmo que eu fiz na política. Naquela época, havia um respeito muito grande. Mesmo entre políticos que estavam em trincheiras diferentes, nos respeitávamos.

JC - No período em que o senhor esteve na Assembleia Legislativa, quais conquistas destaca?

Purini - Foram 20 anos em que procurei representar a população da nossa região. Acredito que uma das conquistas em que pude ajudar foi na duplicação da Rodovia Marechal Rondon. Em princípio, a obra viria até Bauru só. Mas depois, conseguimos que fosse ampliada e seguisse até o final da divisa do Estado. Teve ainda a encampação da Unesp. E acho que o principal foi a construção do novo aeroporto. Esse aeroporto foi construído para o transporte de cargas e passageiros. Na parte de cargas, já está entre os principais do estado. No futuro, certamente atrairá também uma demanda maior de empresas aéreas interessadas na região. No período em que fui deputado, recebi o título de cidadão de 23 municípios da região. Em Bauru, recebi o título de Cidadão Bauruense, Cidadão do Centenário e a medalha Custos Vigilat.

Vinicius Bomfim
Roberto com a esposa Maria Helena e os quatro filhos Roberta, Renata, Roberto e Renato

JC - Apenas um de seus filhos, o Renato, foi para a política. O senhor o incentivou?

Purini - Nunca incentivei. Os meus outros três filhos não foram para a política e o Renato eu achei que não iria. Quando ele era mais novo, me acompanhou poucas vezes em viagens e eventos políticos, até que ao completar 18 anos teve interesse em se filiar e depois concorrer a vereador.

Perfil

Roberto Hilvo Giovani Purini nasceu em Poloni, em 21 de março de 1937 - tem 82 anos.

É casado com Maria Helena Bonomo Purini e tem quatro filhos, Roberta Helena, Renata Helena, Roberto Augusto e Renato Celso.

Seu livro preferido é a Bíblia. Gosta também de ler sobre religião e filosofia.

Torce para o Corinthians e o Noroeste.

Dá nota 10 para o pai, Giuseppe.

Não dá nota 0 para ninguém, pois considera que, por pior que alguém seja, não merece 0.