08 de julho de 2026
Turismo

Cannaregio, refúgio antimuvuca

Daniel Nunes Gonçalve
| Tempo de leitura: 3 min

JANELA

"Quando a gente se move levemente, sem ruído, aprecia a cidade de forma verdadeira, a partir da água, como os venezianos têm feito por séculos."

Emiliano Simon

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"O ofício de remar ao estilo veneziano nos ensina a navegar devagar, sem pressa", explica Emiliano Simon, um jovem nativo de 32 anos, enquanto manuseia delicadamente o remo de um barco quase idêntico à gondola, embarcação-símbolo de Veneza. "Quando a gente se move levemente, sem ruído, aprecia a cidade de forma verdadeira, a partir da água, como os venezianos têm feito por séculos."

O minicurso de 1h30 (40 euros ou R$ 170) que ministra com seus amigos Nicola Ebner e Damiano Tonolotto, ambos de 30 anos, na escola Venice On Board é o melhor jeito de reviver La Sereníssima e viver uma experiência autêntica.

Eu não descobriria que é possível ser gondoleiro por um dia se não tivesse recebido a dica de outro morador. Foi o geógrafo cultural Francesco Visentin, pesquisador da Universidade Ca’ Foscari, quem deu uma daquelas dicas de amigo preciosas: "Vale a pena aprender a remar com os rapazes da oficina de restauração de barcos tradicionais de madeira de Cannaregio". Além de ser mais econômica que os caríssimos passeios convencionais de gôndola, a experiência pelos canais pacatos da vizinhança mais residencial do Centro Histórico mostrou que é preciso viver como um local para conhecer a Veneza real, fluida, tranquila.

Cannaregio, que já tinha virado o bairro para chamar de meu, por ser onde escolhi me hospedar, permitiria que eu descobrisse outras surpresas. Uma delas foi aprender como se fazem os famosos vidros de Murano sem precisar contratar uma excursão para a ilhota turística vizinha. Na loja de bijuterias Momylia (Cannaregio, 3.378, momylia@libero.it), o artesão Mauro Zennaro apresenta, sem custo, o processo artesanal de fusão dos metais no seu rústico ateliê.

Quem me levou ali foi Luca Fornasier, 24 anos, veneziano que promove caminhadas guiadas (100 euros ou R$ 420, 2h; shomevenice com) e outros tours com sua namorada, Erika Chia, de 21 – famosa na cidade por ser a Maria do Carnaval de Veneza de 2018 (espécie de rainha da festa).

A deliciosa caminhada pelo preservado Ghetto, bairro onde os judeus eram confinados no século 16, foi orientação do casal Sebastian Fagarazzi e Valeria Duflot, ele italiano e ela francesa, criadores do Venezia Autentica. A plataforma compila mais de 100 experiências locais, como degustações gastronômicas com vinho (199 euros ou R$ 840, 2h) e aula de confecção de máscaras de carnaval (150 euros ou R$ 633).

Outra dica de Visentin, a pouco conhecida Igreja della Madonna dell’Orto exibe 10 pinturas fantásticas e o túmulo do mestre Tintoretto, um dos mais famosos pintores locais – o Palazzo Ducale e a Gallerie dell’Accademia, que exibem outros de seus trabalhos no miolo mais turístico da cidade, requerem filas para serem vistas.

Passei com alguns desses novos amigos o fim da tarde em outro programa típico dos locais: testando os bacari (barzinhos) da Fondamenta Misericordia e provando chicchettis (petiscos) com spritz ou vinho italiano. Na escondida Trattoria Dalla Marisa (Cannaregio 652b Calle Canna), só pude entrar e provar a deliciosa polenta porque estava acompanhado de residentes. Ali os donos só acomodam os turistas depois que os moradores da fila já tiverem garantido mesa.