09 de julho de 2026
Articulistas

A terceira margem da vida

José Carlos Brandão
| Tempo de leitura: 2 min

Os leitores têm curiosidade, têm interesse em saber a gênese das obras literárias. De onde o autor tirou tal ideia? Em que "se inspirou"? Assim, teria alguma história por trás de "A terceira margem do rio", esse conto excepcional de Guimarães Rosa? Ele conta-a em uma crônica. Deveria ser mais divulgada, essa relação entre seu conto/crônica pode dizer muito sobre a criação literária. De onde teria surgido essa ideia estranha? De contos populares, lendas, crendices? Algum maluco do sertão teria algum dia realizado uma meia façanha dessas, meia apenas, de tão inverossímil? Somente verossímil nas palavras do autor, demiurgo que encanta a realidade.

G. Rosa conta em sua crônica a história de um viajante incansável, que veio da Holanda ao Rio de Janeiro, do Rio ao Recife, e à Alemanha, à Inglaterra, sempre a um porto diferente, sem aportar em nenhum. Estava sempre em viagem. Estava sempre na terceira margem. Era o tempo em que o mundo vinha abaixo, nos anos da 2ª Guerra Mundial, tempo de perigo, de espionagens, de muita gente vivendo uma vida secreta. Mesmo G. Rosa e sua mulher Ara viviam vidas secretas, paralelas à sua existência burocrática de diplomatas, conseguindo papéis para milhares de judeus escaparem do extermínio nazista. E, enquanto isso, enquanto o mundo tremia em suas bases, um homem comum, aparentemente sem quê nem porquê, inventa de realizar uma ideia incomum: não morar em lugar nenhum. Estava sempre em viagem. Sempre na terceira margem. Era uma história. Era uma história extraordinária.

Terminado o desastre da guerra, de alma leve, descansado, G. Rosa situa a sua história, como não podia deixar de ser, nas suas Minas Gerais. O seu personagem é um caboclo simples, rude, tosco, incapaz de uma ideia fora do comum. O narrador é seu filho: conta como o pai entalha o barco em madeira de lei, forte para durar muitíssimos anos, sem falar com ninguém, até o dia em que se despede da família, ainda sem nenhuma explicação.

Deita um meio carinho no filho, quase uma bênção. A mulher deita-lhe uma quase maldição, que vá para sempre, não volte nunca mais. O homem vai para não voltar nunca mais, mas também não vai para sempre: está ali à frente, dentro do rio, sem ter ido para lugar nenhum. O filho, menino, torna-se homem feito e feio como o pai: sempre à margem do rio comunicando-se à sua maneira, até arremedando o jeito, as feições, como aquela assombração que não está nesta nem na outra margem do rio, presente e ausente a um tempo. É a mesma história da crônica dos tempos da guerra, em que o personagem comum também fugia da guerra e da vida impossível, não estando em lugar nenhum. Numa terceira margem - que é também nenhures, isto é, lugar nenhum.