10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Memórias de um rato de quartéis

Prof. Gilberto Sidney Vieira
| Tempo de leitura: 2 min

Meu pai me levava, quando menino, aos quartéis onde servia. Lembro-me de várias passagens minhas como um rato de quartel. Nos anos 1950, assisti aos exercícios de tiros reais de canhões pelas baterias do Forte Itaipu (Praia Grande). Um rebocador da Companhia Docas de Santos, através de 1 cabo de aço, puxava um alvo para ser atingido por um projétil.

Meu pai (então sargento) calculava a localização e distância do navio inimigo. Usava um telêmetro (espécie de binóculo de guerra). Cálculos feitos, ordenava aos soldados para acionarem um dos canhões do forte. Aí havia um estrondo e o céu ao redor ficava vermelho pela explosão. Ele me mostrou um túnel na rocha do forte onde eram guardados os projetis dos canhões. Do Sexto Grupamento Motorizado de Artilharia de Costa lembro da passagem do goleiro da Seleção Brasileira servindo como recruta, Gilmar dos Santos Neves, que jogava no Jabaquara (Santos). Mais tarde, foi campeão mundial duas vezes (1958 e 1962). Jogou depois no Corinthians. O comandante, então major Erasmo Dias, tratava Gilmar como "peixinho" dele.

Peixinho era gíria militar para alguém subalterno que tinha a proteção de um graduado. Isto porque Erasmo o desejava jogando no time do quartel, contra times de outros quartéis. Do Sexto Grupamento (rua Luís de Camões) recordo também do cão mascote do quartel, cujo apelido era "Meganha". Apelido que designava, na gíria militar, o policial, que embora usasse farda, não era do exército. "Meganha", sempre que me via, tentava morder minha perna. Motivo: eu não usava uma farda do exército (cor verde-oliva). Logo, era "inimigo". O cão agia como policial, protegendo os militares fardados. Só me livrava da mordida porque alguém fardado intercedia em minha defesa. Da passagem de meu pai pelo Quartel General do Exército em Santos, recordo de um fato inusitado.

Num determinado dia dos anos 1950, um recruta fardado se desentendeu verbalmente numa rua central de Santos com um policial estadual da Polícia Marítima, durante batida policial. Embora fardado, o recruta do exército foi revistado indevidamente como um marginal. Competia à Polícia Marítima fiscalizar o roubo ou furto de cargas e tráfico de drogas apenas na região lindeira ao cais. Mas o soldado estava numa rua central. O recruta só poderia ser revistado pela polícia do Exército. Foi revistado, preso sem provas e levado ao quartel da Polícia Marítima Aérea.

O então coronel Erasmo Dias, comandante do QG do Exército da Baixada Santista, reuniu toda a tropa e se dirigiu imediatamente para o quartel da Polícia Marítima, libertando o soldado arbitrariamente preso e prendendo o comandante da polícia marítima. Erasmo Dias só deixou o quartel quando um telefonema do general comandante da Segunda Região Militar - SP - Capital, assim o determinou. Recordo também que Edson Arantes do Nascimento (Pelé) serviu como recruta no Forte Itaipu e que meu pai também estava lá. Há muitas passagens minhas pelos quartéis da baixada santista.

Pincei apenas algumas que reputo como mais relevantes para a elaboração deste texto.