Como resistir à tentação de usar filtro quando se faz uma selfie? Os recursos de alteração de imagem de uma fotografia são inúmeros. Trata-se de uma nova forma de maquiagem virtual, da qual muita gente não vive mais sem.
Até que ponto o exagero no uso de filtros em imagens pode revelar a fragilidade emocional de um indivíduo? Para desvendar o assunto, é bom ouvir o psicanalista Leonardo Goldberg, doutor em Psicologia.
Ele lembra que as pessoas sempre sentiram vontade de realizar edições na própria imagem, como com a própria maquiagem, que data já do antigo Egito.
Essa necessidade, do ponto de vista estético, faz com que o sujeito tente se aproximar de uma imagem ideal, que varia de acordo com o tempo e a cultura. E é aí que mora o perigo, enfatiza o psicanalista: "Apesar de o conceito de imagem ideal ser inalcançável, o sujeito hoje é bombardeado por uma exigência estética computadorizada, editada através de filtros, Photoshop, cada vez mais acessíveis por qualquer usuário que consiga manejar um smartphone".
AUTOIMAGEM DISTORCIDA
Para o especialista, essa necessidade de editar a própria imagem, sobretudo na selfie, faz com que o sujeito tenha a impressão - sempre passageira - de que diminuiu a distância entre a beleza que tem e aquela que gostaria de ter. "O engano é crer que a concepção do belo pode ser pautada pela supressão das marcas, das pequenas assimetrias, imperfeições, que às vezes destacam a beleza de cada um", analisa.
O uso exagerado de filtros em selfies também pode revelar uma espécie de disputa entre os internautas. "O que pauta a disputa nas redes é uma lógica do reconhecimento: aquele que é mais curtido torna-se uma influência digital. Os perfis com maior engajamento, das celebridades digitais, não ao acaso, são seguidos por milhões de pessoas e seguem pouquíssimas. Um exemplo claro desta disputa é o perfil que segue, é seguido de volta e depois deixa de seguir o usuário. É um circuito muito concreto de uso do outro enquanto espectador", afirma Leonardo Goldberg.
TRANSTORNO PSÍQUICO
Uma pesquisa do Boston Medical Center, publicada no JAMA Facial Plastic Surgery Viewpoint, revela que o uso de filtros pode afetar a autoestima de uma pessoa e desencadear transtornos dismórficos corporais.
"Selfies filtradas podem fazer com que as pessoas percam o contato com a realidade, criando a expectativa de que devemos estar perfeitamente preparados, bonitos, elegantes e desejáveis o tempo todo. Isso pode ser especialmente prejudicial para adolescentes e pessoas com Transtorno Dismórfico Corporal e é importante que os cirurgiões plásticos compreendam as implicações das mídias sociais na imagem corporal para melhor tratar e aconselhar os pacientes", defende Ruben Penteado, integrante da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
O psicanalista Leonardo Goldberg acredita que associar uso de filtros ao transtorno de imagem é exagero. "É impossível corroborar com a tese. Seria mais prudente pensarmos que os filtros aparecem para suprir uma demanda e um sintoma da cultura - o que chamamos de estética - cada vez mais agressiva, que idealiza corpos e rostos de uma perfeição atingível apenas através da imagem computadorizada", argumenta.
Para o doutor em Psicologia, os filtros são apenas um "possível" nessa equação: "A medicina estética, através da nutrologia e da cirurgia plástica, por exemplo, fornecem 'filtros' que também editam os corpos através de prescrições hormonais, cortes e suturas na própria carne. O botox, os lábios inchados, os idosos com pele firme, são típicos fenômenos contemporâneos que revelam o quanto nossa concepção do belo tem a ver com a promessa de estancar o tempo".