10 de julho de 2026
Entrevista da semana

Maria Irene Bachega: ela ouve adultos e trata os pequenos

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Determinada, profissional e cheia de energia para iniciar novos projetos, Maria Irene Bachega chegou a Bauru em 1977, recém-formada em enfermagem. Segundo ela, tudo em sua carreira aconteceu muito rápido, devido às oportunidades que não deixou passar. Aos 63 anos, comemorados no último dia 19, ela celebra a implantação dos 20 anos da Ouvidoria do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (o popular Centrinho da USP), área pioneira no setor hospitalar do País e administrada por ela desde o início.

Nesta entrevista, conta como foi seu encontro com Bauru, cidade onde construiu sua família; como surgiu o amor e a vontade de trabalhar em prol da saúde - principalmente das crianças - e sobre suas experiências ao longo dos seus 42 anos de Centrinho. Confira os principais trechos:

Jornal da Cidade - De onde é e como chegou a Bauru?

Maria Irene Bachega - Sou de Bauru de coração. Estou na cidade há 42 anos, o tempo aqui no Centrinho. Mas eu nasci em Pacaembu e cresci em Adamantina. Saí de lá, aos 17 anos, para fazer enfermagem na PUC-Campinas. Minha vinda a Bauru foi até engraçada. Eu estava viajando e parei para almoçar aqui, recém-formada. Então, pensei em perguntar na Santa Casa [instituição fundada em 1911] se estavam precisando de enfermeiros e eles estavam contatando. Isso era dezembro de 1976. Em janeiro de 1977, eu estava aqui trabalhando.

JC - Então começou seu trabalho na Santa Casa?

Maria Irene - Sim, mas foi tudo questão de meses. Sempre gostei demais da pediatria e, na mesma época, foi inaugurada a UTI aqui em Bauru. No dia da inauguração, os diretores perceberam que as crianças no berçário estavam "brincando" e sorrindo com uma plaquinha que refletia o rosto delas. Eu que tinha dado a elas, pois percebi que elas não tinham com o que se divertir. Naquele dia, fui homenageada e foi quando conheci o Dr. Gastão [José Alberto de Souza Freitas, ex-superintendente do Centrinho/USP], que me falou para fazer o concurso que havia sido aberto lá [no Centrinho].

JC - Foi aí que entrou no Centrinho?

Maria Irene - Não, eu fiquei pensando por um tempo ainda. Foi quando eu resolvi fazer uma visita ao Centrinho, que na época era muito diferente. Eu vi duas crianças no berçário. Elas ficaram na minha cabeça. Pensei que precisava ajudá-las. Então, fiz o concurso e passei. Comecei aqui dia 13 de junho de 1977. Eu fui dinamizando os funcionários e montei o serviço de enfermagem dentro das normativas.

JC - Você já passou por muitas áreas no Centrinho, não só a enfermaria, certo?

Maria Irene - Sim, já fiz muitas coisas e ainda faço muitas atividades. Também sou presidente do Grupo de Humanização e Educação Permanente. Sempre gostei muito de estudar. Quando saí da faculdade, ainda fiz administração hospitalar, mestrado em Enfermagem Pediátrica e doutorado em Pediatria. Felizmente, tive mesmo muitas oportunidades aqui dentro e trabalhei em vários setores. Eu sempre digo que "o trem passou no horário, não perca esse horário".

JC - E a Ouvidoria, onde atua até hoje, surgiu em qual dessas oportunidades?

Maria Irene - Eu já estava com 38 anos e achei que não seria mais mãe, mas tive um filho em 1995. Nessa época, montei um berçário para filhos de funcionários que se chamava Leite & Amor, em que eu ficava com as crianças e pude aproveitar desse momento tão importante e especial com o meu filho. O projeto ficou ativo por 21 anos aqui. Mas, enfim, em 1999, o Dr. Gastão pediu que eu voltasse aos trabalhos no Centrinho assumindo esse novo setor, a Ouvidoria, que eu nem sabia do que se tratava.

JC - Isso porque o Centrinho foi pioneiro nisso, correto?

Maria Irene - Sim, nossa Ouvidoria é conhecida no País inteiro por ser a primeira Ouvidoria Hospitalar do Brasil. Então, a gente passou por várias fases e eu trabalho com uma equipe muito maravilhosa. No próximo dia 13 completamos 20 anos.

JC - E de onde surgiu essa vontade de cuidar do outro?

Maria Irene - Eu fiz colégio de freiras e já no colegial, uma freira falava muito sobre o cuidar e eu amava as aulas dela. Na época, li uma reportagem sobre enfermagem e pensei: quero fazer isso. Minha bisavó também era parteira e as histórias dela sempre me encantavam. Acho que esse gosto por ser útil e cuidar estão na veia.

JC - Você conheceu seu marido aqui em Bauru?

Maria Irene - Conheci meu marido voltando de São Paulo, em um ônibus. Namoramos depois de muita  insistência dele [risos] e ele me pediu em casamento quando estava internado na UTI, dizendo que se ele levantasse da cama, a gente casaria. Meu casamento foi muito lindo, nosso filho tinha 6 anos e adorou participar.

JC - Nesses anos todos, o que mais se orgulha de ter construído?

Maria Irene - Eu me orgulho de fazer parte desta instituição que tem dado tantas oportunidades de tratamento para tantas pessoas. Posso falar que é uma gratidão grande por trabalhar aqui. Não fui eu que escolhi, eu fui escolhida e isso faz diferença no meu trabalho e no meu dia a dia.