08 de julho de 2026
Articulistas

"Aifones"

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

Entrei na clínica médica para consulta e ali havia umas 12 pessoas no aguardo. Todas com "aifone" e olhos vidrados no aparelho. Dei "bom dia", meio tímido e, de volta, nenhuma palavra, apenas celulares apontados em minha direção com os "bons dias" em suas telas. Sentei e tentei puxar conversa com um senhor à minha esquerda, ele não respondeu com palavras, mas com uma digitação em seu "aifone".

Quer conversar? Se quiser me passa o número do seu zap. Achei melhor obedecer e digitei no meu "aifone" o número do meu zap. Ele adicionou e começamos a conversar... ops... a digitar. Eu ali, de papo com o senhor, que descobri chamar-se Caio, quando senti uma pancada em meu pé, ao olhar vi que a moça sentada à minha direita, ao se levantar olhando para tela do "aifone" tropeçou em meu pé. Ela olhou bem pra minha cara gravou um áudio e me cutucou, passando seu "aifone" para que eu pudesse escutar. O áudio, de dois segundos, dizia: Desculpa! Eu, inocente, falei pra ela: "Magina... não tem problema"... Quando todos ouviram minha voz, olharam-me com reprovação e escreveram em seus respectivos "aifones" mostrando-me a tela: - Silêncio! Entendi o recado e digitei: Ok! E assim passou o tempo até chegar o momento do médico me atender. A recepcionista, como já tinha meu número de zap, enviou uma mensagem pedindo para eu entrar.

Entrei na sala do médico. Cumprimentei-o com um "bom dia". O doutor digitou em seu "aifone" um "bom dia" como resposta. Disse pra ele: Tudo bem, doutor, eu já entendi. Ele digitou e me mostrou o que havia escrito em seu "aifone": Entendeu nada, se tivesse entendido teria digitado ou gravado áudio. Aliás, que mundo você vive? Fiquei ali, meio sem graça depois do sabão do médico, então, digitei: Vamos à consulta? Foi aí que o médico começou o exame gravando um áudio em seu "aifone".

Gravava o áudio e me enviava. Eu ouvia e respondia pra ele com outro áudio. E assim fizemos por 20 minutos até ele encerrar a consulta e digitar que mandaria a receita dos remédios pelo zap. Agradeci, em áudio, e sai do consultório satisfeito, pensando: Bons tempos em que vivemos, temos hoje um intermediário para os papos, os "aifones" sempre prestativos e atenciosos a conectar-nos ao mundo e as pessoas. Sinais da evolução! Será?