08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O chocalho

José Carlos Brandão (ABL)
| Tempo de leitura: 2 min

Uma equipe de arqueólogos deparou com um chocalho dentro de uma vala da Guerra Civil espanhola. Era um brinquedo rosa e amarelo brilhante, em forma de flor, que estava ao lado de um cadáver borrifado com cal viva e enterrado sem caixão. Catalina Muñoz foi executada durante a ditadura de Franco e enterrada com o brinquedo do bebê de nove meses, que só ficou sabendo da história 83 anos depois.

Era o objeto mais comovente que pôde ser retirado de uma fossa da guerra. Catalina, 37 anos, tinha 4 filhos quando a mataram. O menor, Martin, seria o dono do chocalho. Não se lembra da mãe, não tem nenhuma foto dela, ninguém da família fala do que aconteceu. Foi criado por uma tia. O pai ficou 17 anos preso por matar um soldado. A mãe foi acusada de participar de comícios e de querer a morte dos republicanos revoltados. Reconheceu que participou de manifestações, mais nada. Foi condenada à morte. Outros não tiveram melhor destino: não foram nem julgados. Os republicanos fascistas têm sede de sangue.

Morreu por ferimentos a bala no crânio e no peito. Junto a seus ossos foram encontrados botões, colchetes de metal, as solas de borracha de seus sapatos e o chocalho do filho ainda nenê. Tentara fugir com a criança, mas foi presa. Não aconteceu nada com o menino. A filha mais velha se lembra do chocalho, que deveria estar no bolso do avental. Martín não sabia que a mãe havia sido enterrada sozinha e agora viu pela primeira vez a foto do brinquedo levado ao túmulo. A sua filha diz que o pai fica às lágrimas quando se pergunta se vai morrer antes que lhe tragam a mãe de volta. Ele que a vida inteira não sabia nada dela.

Mas é tão importante assim um simples chocalho? Sim, o chocalho se torna um símbolo. Catalina não se separou dele nem na hora da morte, como se fosse o próprio filho que levava ali consigo. Objetos como o chocalho de Catalina são pequenos tesouros para os arqueólogos, que aplicam métodos científicos à recuperação de episódios da história recente. Permitem uma aproximação do cotidiano das pessoas vítimas da repressão.

Um lápis, óculos, um livro, um relógio, um recorte de jornal são pequenos flashes da vida de cada um no momento em que foram presos. É como se um pouco da pessoa estivesse no objeto, a sua intimidade, gostos, desejos, dores e alegrias. É como se a pessoa ainda estivesse viva no objeto que levou com ela.

O mínimo tem uma importância insuspeitada. Os objetos proporcionam uma visão diferente de episódios da história recente. Como se esses objetos resumissem toda a guerra. Esse tipo de arqueologia não quer contar uma história já conhecida, mas sintetizar o passado em uma imagem. Como o chocalho de Catalina, que sintetiza uma triste passagem da história da humanidade.

A história não pode ser assassinada.