No bar, cumprindo dever burocrático, a noite libera edênica sensualidade. Os olhares cintilantes passeiam por entre as mesas. Cruzam-se, enroscam-se, sorriem-se e até se namoram. A alegria, impossível de ser contida, explode num alarido de taças, copos, risos, garrafas, beijos, vozes, sobretudo interjeições. É a vida celebrando ruidosamente a estonteante beleza jovem. Rostos, corpos, cabelos e peles agradecem o brilho da custosa produção.
De repente, a moça linda entra impactando. O bar já não é o mesmo. A vassalagem dos olhares mistura-se a um frisson de espanto, de desejos e de inveja eletrizando o ambiente. Impossível ignorar o arrebatamento da beleza jovem quando decide anunciar-se. Efeito contrário se dá na velhice.
À medida que envelhecemos, vamos nos tornando invisíveis. Alguém duvida de que os olhos sejam maníacos por beleza? Da velhice, num átimo, costumam desviar-se. Como enfrentar a constatação de não mais ser? De ficar fora das luzes da ribalta? Alguma dor, claro, haverá, tudo dependendo do tamanho do ego.
Um olhar diferente, todavia, é possível. Se envelhecer é tornar-se invisível, na mesma medida pode ser um momento libertador. Se nenhum compromisso tenho mais com os olhos alheios, que não me veem. Se fora do centro das atenções estou, então posso, finalmente, escutar apenas a minha voz e ver apenas a minha cara, já devidamente limpa de toda maquiagem festiva. Hora de me encontrar comigo e, finalmente, melhor me conhecer, tão distante de mim tenho andado.
Conhecendo-me, tenho a oportunidade de me fazer melhor: menos ego, mais empatia, menos dedo acusador, mais mão solidária. A boa solidão pode ser experiência fantástica. No silêncio, a reflexão; num cantinho, o violão (saudades do João); dentro de mim, paz e doce canção.
Contudo, não podemos nos transformar em seres misantropos, que de si não saem. A boa solidão não pode nos emparedar em nós mesmos. É preciso voltar ao convívio das gentes e levar à alma alheia a alegria que, em nós descobrimos e, agora, exige compartilhamento. Só quem se harmonizou pode ao outro oferecer agradável companhia. Assim não sendo, a ele levaremos apenas frustrações e mágoas, o azedume, enfim, que nos habita e corrói.
Claro, a todos é dada a oportunidade de se humanizarem antes de velhos serem. E muitos assim o fazem. Reconheçamos, contudo, quão difícil é encontrar-se consigo mesmo quando a beleza e o sucesso nos induzem a buscar o aplauso alheio. Armadilha terrível! Poucos dela conseguem escapar.