08 de julho de 2026
Articulistas

Pensar é o bicho

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

"Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come." Essa frase, você, eu, o padeiro, o filho embaixador do Bolsonaro, o Neymar, o pipoqueiro da esquina, não há quem desconheça. Aliás, genialidade de uma frase se mede, obviamente, pela estatística dos ouvidos. Essa estourou os tímpanos do ibope. Quem a teria inventado? Como tantas outras, certamente o genial anônimo. É só o bicho mostrar a cara, a frase vem minhocar a cabeça da gente. Mas ninguém traduziu melhor do que Drummond o momento do bicho que chega: "E agora, José?"

Ninguém podia imaginar, claro, que uma frase tão boa assim, pudesse ficar ainda melhor. Só que a espetacular criatividade anônima conseguiu dela fazer tesouro ainda maior: "Se pensar o bicho some". Genial! Um novo verbo, com rima e tudo, chega e recria nova possibilidade de leitura. Agora, o bicho não pega. Agora o bicho não come. Agora o bicho some. Tranquilo como beber água. Pensando, a gente espanta o bicho. Sempre é possível encontrar uma saída que, se o nó inteiro não desata, ao menos pode nos afrouxá-lo da garganta. Não se enfrenta o bicho ficando, menos ainda correndo, mas pensando, o bicho some. Simples, não?

Simples uma ova! Drummond novamente põe a incômoda pedra no nosso caminho. Sabemos pensar? A gente pensa que sabe. Pensar é extremamente difícil porque exige que fiquemos distantes da coisa pensada. Um exemplo? Como podemos saber quem uma pessoa é, se por ela estamos apaixonados? Como avaliarmos atitudes de um filho, se a imagem que temos dele está distorcida de tanto amor? Como saber quem sou, se estou inundado de mim?

Só quem, de alguma forma, consegue se afastar das certezas que o prendem, pode pensar bem. Esse é o nó complicador: estamos amarrados por um excesso de certezas. E certezas são cordas que aprisionam. Crença religiosa é corda; partido político, corda; família, corda! Tão amarrados estamos que, não poucas vezes, a corda fanática chega a nos cegar. Bem, melhor não generalizar. Alguns, ao longo da vida, souberam menos se amarrar. Por isso, mais livre ficaram para pensar.

O preconceito viiiixe! É a pior das cordas. Não adianta correr, ele sempre nos pega. Como aceitar Paulo beijando José? E Maria abraçada à Fernanda? E a pele diferente? E os velhos, cuja lentidão nos exaspera? Como aceitar quem ousa de nós pensar diferente? Reconheçamos, são muitas as cordas que nos enforcam. Não o pescoço, mas a cabeça. Às vezes, a alma. Saberemos afrouxá-las?