09 de julho de 2026
Articulistas

Presos no galinheiro

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 2 min

O Brasil está chegando a um ponto de ruptura. Depois de tantos anos de democracia, o país ainda enfrenta crises sem precedentes de urbanização, pobreza e desagregação de um sistema político completamente perdulário e ineficiente. Se somos gerenciados por instituições decadentes que variam de governos retrógrados a um judiciário autofágico, passando por igrejas que vendem uma religiosidade oca e irrelevante, então, na verdade, estamos por nossa conta.

Esse sistema ingrato sob o qual vivemos facilita a impunidade e a expansão da violência, exaure o provento de nosso trabalho através de impostos abusivos, usa nossa energia e nossa boa vontade sem nos proporcionar serviços adequados no tripé basilar que dá sustentação à dignidade de um povo: saúde, educação e segurança.

A base da sociedade também vem sendo carcomida por um outro sistema: as mídias sociais e principalmente pela televisão, onde tudo é permitido e justificável. As mensagens que jorram da televisão muitas vezes subvertem a verdade, invertem a ordem natural das coisas, mancham nossas salas e vão redefinindo aos poucos a forma como as pessoas passam a entender suas vidas.

Desgraçadamente, graças as mais variadas mídias, toda a nossa sociedade está fundamentada na ideia de que a base da felicidade é receber e comprar. Captamos esta mensagem centenas de vezes todos os dias: receber uma boa educação, a melhor taxa de juros, receber o sentimento de ser amado, valorizado, apreciado em casa e no trabalho. Se eu não receber ou comprar tudo o que quero ou aquilo que supostamente preciso, fico ansioso e preocupado. E na medida em que o sistema capitalista ou o consumismo dá continuidade a seu impulso, consegue colonizar nossos pensamentos e controlar nossos desejos e comportamentos.

Não estamos neste mundo a passeio, não viemos só para fazer umas compras, namorar um pouco, deixar filhos e depois ir embora. Viemos para compartilhar, para servir, para evoluirmos espiritualmente e satisfazermos as necessidades de nossa alma. E enquanto não acordarmos para essa realidade, seguiremos fracassando em nossas tentativas de encontrar a paz e a felicidade.

Conta a história que uma pequenina águia foi encontrada por um fazendeiro. Havia caído do ninho. O sistema, ou melhor o fazendeiro, a levou para o galinheiro e a deixou com os frangos e galinhas. Ela cresceu aprendendo ciscar e dar pequenos pulos, mas uma águia voa alto. Quando o sistema, aqui representado pelo fazendeiro, resolveu levá-la a um local alto e a soltou para que voasse, ela não conseguiu.

A natureza da águia é voar a grandes alturas. Uma vez na vida quebra seu próprio bico e arranca suas penas para renascer. Voa alto, habita penhascos. Somos assim, capazes de alçar voos incríveis, mas todo esse sistema nos mantém aprisionados como galinhas, ciscando restos pelo chão desse imenso, rico e espoliado país.