08 de julho de 2026
Articulistas

Vai a vida...

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Hospital. Elas se revezam, sem a saliência das vozes, em orações. Mãe e filha, num silêncio recolhido e morno, acompanham um paciente. Diabetes. Ela agoniza o senhor de 74 anos, encerrando suas expectativas. Ao paralisar os rins, conduzindo-o à hemodiálise, dias depois, eleva a pressão nos olhos, causando-lhe inevitável glaucoma seguida por catarata. Mesmo sem enxergar, ele vê no amor familiar revezamentos de gradiente esperança.

Gradual, a doença compromete a má circulação nos pés e membros inferiores. Com vascularização deficiente, a amputação de um membro torna-se inevitável. Manco, ele mantém a altura de sua fé por equilibrar-se na compostura de suas gratidões.

Aproximo-me do seu rosto, chamando-lhe. Sua boca... seca balbucia afetos. O coração, descompassado. A respiração dilui como água de um rio que se absorve em seu leito. Os olhos despacham lágrimas. Num gesto de despedida, ele - com as mãos côncavas - busca as mãos da esposa e da filha, convencido da celebração do amor familiar em vida. Até o último minuto, ele luta pela vida, na tentativa de superar os vestígios da morte. Até o último momento, suas mãos recepcionam orgulhosamente a aliança de casamento. Mãos que conduziram pessoas no sustento familiar. Mãos que, agora, acenam como pássaros, por reconhecerem na altura do voo o trajeto da saudade.

Nesse momento, agradeço-lhe pela sabedoria transmitida em seus gestos de amistosa convivência. De alguém capaz de semear paz e união, independentemente de onde seus pés cansados o levavam. De um ser que ao sorrir, soube amar plenamente sem o ônus do apego. De um homem dedicado a servir com simplicidade, sem cobrar impostos de reconhecimento. De um pai dedicado a auxiliar, a comungar com a vida esperanças, igualmente ao Tempo, que ao se vestir de verão carrega a alma em primavera. De um sogro vocacionado a reconhecer os erros sem apresentar faturas de suposta superioridade.

Quando alguém se vai, o que dele era nosso e o que nosso era dele vai com ele. Vai o café da tarde, o pedido de ligação para confirmar se chegou bem. Vai a mão que risca o fósforo, acende a vela e bate palmas. Vai a cadeira na calçada disposta a cerzir companhias. Vai a palavra nascida, falada, perdida. Vai a vida.