09 de julho de 2026
Entrevista da semana

Um poético cidadão

'Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Conversar com Luiz Vitor Martinello é ter uma aula de história, de literatura, de poesia e também de vida (por que não?). É um aprendizado, em que citações suas e de outros autores são mescladas. Com entusiasmo e sem pressa, surge, acima de tudo, o poeta. E não poderia ser diferente: afinal, são mais de 40 anos de carreira literária. Paralelamente, ele tem o mesmo tanto como professor. Já escreveu 11 obras (três livros infantis, seis de poemas e duas coletâneas) e agora mais uma será lançada nesta terça-feira (5), no hall do Teatro Municipal, com o título de "S'Obras Poéticas - poesia revisitada".

Jornal da Cidade - É um poeta. A propósito, como nascem seus poemas?

Luiz Vitor Martinello - Meus poemas só vêm quando querem e quando vêm, não vêm prontos. Vislumbro-os, quase nus. E, então, o que faço é tentar vesti-los com palavras, uma tarefa árdua, incansável, quase nunca acabada. Mesmo depois de publicados, muitos parecem incompletos, inacabados e há sempre algo que poderia mudar. E havendo oportunidade eu mudo mesmo (risos). Esse livro a ser lançado agora no dia 5 é muito resultado deste modo de pensar a poesia.

JC - Você se define como um pacato cidadão.

Luiz Vitor Martinello - Sim. Houve uma polêmica nacional com um poema meu o "Final Feliz, Natal!", em 1985. Mas foi como chuva de verão. Um poeta de aldeia será sempre um poeta de aldeia. De resto, vivi uma vida pacata, sempre dando aulas (agora estou aposentado), participando de grupos de poesia, publicando meus livrinhos de poesia e de literatura infantil.

JC - Nasceu em Bauru?

Luiz Vitor Martinello -  Não, mas fui "fabricado" aqui, em noites de lua de mel. No entanto, meu pai, Arnaldo Martinello, recebeu um convite para trabalhar em Adamantina e lá foi ele com minha mãe, Joanna, já em final de gestação. Tanto que, logo lá chegando, eu nasci no dia 3 de fevereiro de 1948. Já em 1949, meu avô e meus tios compraram um casarão com um bar na frente, na quadra 1 da rua Araújo Leite e para cá eles voltaram. Aqui se estabeleceram de vez. Meu pai, depois foi comerciário. Trabalhou na Loja Tropical e Casa São Jorge. E foi aqui que nasceram minhas três irmãs, meu irmão, meus sobrinhos, meus filhos e meus netos.

JC - Cresceu e viu Bauru crescer também.

Luiz Vitor Martinello - Cresci ali na Vila Seabra, próximo à "Baixada do Silvino", onde Bauru principiou, estudando no quarto grupo (onde era o antigo Eduardo Velho Filho) e frequentando a Igreja Aparecida, onde fui coroinha, sacristão. O casarão da Araújo foi desapropriado quando canalizaram o rio. Ficou ali uma pedra, de enfeite. Um dia ainda vou pichar na pedra o número do casarão: 1-43 (risos).

JC - E foi graças à sua formação católica que quase foi padre?

Luiz Vitor Martinello- Pois é. Como disse, fui coroinha, devia ter uns 9, 10 anos. E, como sacristão, tinha a chave da igreja para abri-la. Arrumava os paramentos do padre, o altar, tocava o sino. A igreja, na época, era um lugar festivo, procissões, missa cantada, quermesse. Aos 12 anos recebi um convite para ingressar no seminário e lá permaneci por nove anos. Foi quando perguntei ao padre superior se padre poderia casar. Ante a negativa, saí do seminário em 1969, permanecendo por mais um ano em Campinas até terminar o curso em 1970.

JC - Campinas já era um grande centro urbano, não?

Luiz Vitor Martinello- Campinas já esboçava ser a cidade enorme que é hoje, mas a gente andava despreocupada pelas ruas, inclusive à noite. Eram comuns lá os filmes de Godard, Truffaut, Fellini, Pasolini. Um grande filme da época foi Doutor Jivago, filme que, aparentemente de amor, me ensinou a enxergar a política com olhos críticos. Gostava muito de Campinas, mas a saudade da família era enorme. Voltei, comecei a lecionar, fiz outra faculdade, a de Letras na antiga Fafil, passei em um concurso, fui efetivado como professor de Língua Portuguesa e Literatura, namorei, casei-me com a Valentina, há já 44 anos, fora os quatro de namoro, tivemos duas filhas e um filho, que veio a falecer.

 

JC - Foi por isso que você brigou com Deus...

Luiz Vitor Martinello - Sim, quando perdi meu filho, o Victor que faleceu aos 15 anos (por conta de uma doença degenerativa: distrofia muscular de Duchenne). Pedi, então, que Deus se revelasse e obtive o silêncio. No meu livro "Poemas da quase religiosidade", escrevi um texto no qual faço uma reflexão sobre este assunto.

JC - E ainda está brigado com Ele?

Luiz Vitor Martinello - No mesmo texto que citei acima, há um trecho que diz mais ou menos isso: que não me preocupa mais saber se Deus existe ou não existe. Nem me importa afirmar ou negar Sua existência: Deus é um ato de fé, uma metafísica. Assim eu quero Deus, se Ele for possível, sem precisar da certeza de que existe, sem precisar dizer que eu O amo, já que Ele por ser Deus é onisciente. Assim eu quero minha alma, se eu a tiver, sem medo do que possa suceder a ela, se por um generoso acaso, houver a tão desejada vida eterna.