08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os bebês e as roseiras

Hilário Nunes da Silva
| Tempo de leitura: 2 min

Desde 2014, eu e minha esposa pertencemos ao grupo de família acolhedora que, em suma, é o receber em nossas casas, por um período determinado, crianças, adolescentes ou grupos de irmãos em situação de risco pessoal e social, dando-lhes acolhida, amparo, aceitação, amor e a possibilidade de convivência familiar e comunitária. A família de acolhimento representa a possibilidade de continuidade da convivência familiar em ambiente sadio para a criança ou adolescente. Nesse sentido, já recebemos no seio familiar vários bebês que, claro, não amamos de imediato. Esse sentimento tão maravilhoso,é construído com o tempo.

No princípio, aliás e sempre, damos tudo de nós. Com o tempo, a criança começa a nos acompanhar com o olhar, querer nos pegar com as mãozinhas, sorrir, e aí o amor, que tácito, torna-se explícito. Nas mamadas, ele nos olha, como que agradecendo, retribuindo tão lindo sentimento. Isso, reiteradas vezes, nas trocas de fraldas, nas papinhas, no berço, no colo.

Disse que o amor se constrói, na verdade, em qualquer relacionamento. Comparo nosso amor às crianças como se estivéssemos em um campo de roseiral todo seco... De longe, avistamos com dificuldade uma pequena rosa que não sucumbiu, mesmo sofrendo com os desarranjos da vida. Então, vamos até lá, nos ferindo, abrindo o caminho com nossas mãos nuas, mas calejadas de situações semelhantes, outrora. Chegamos, recebemos a rosa, ela se encontra triste, só, machucada emocional e muitas vezes fisicamente. Tiramos os galhos que a impedem de ver o sol, de crescer, aguamos com fluidos de amor, amparamos seus galhos finos, sensíveis, feridos, mais ávidos por viver.

Ela sobrevive, sente o prazer de receber apoio, extensão de nossos abraços, beijos, carinhos. Quando percebemos, ela está forte, regozijamo-nos! Damos o nosso melhor a ela sem, no entanto, arrancá-la de suas raízes, para que no futuro, suas sementes, seus brotos se espalhem, e nós, de longe, acompanhamos quando esse singelo gesto nos é facultado, felizes por mais um dever cumprido.