08 de julho de 2026
Turismo

Frenética

Marina Azaredo
| Tempo de leitura: 2 min

Enquanto trens do metrô com grafites ilegais correm embaixo da terra, extensos parques cheios de verde se prestam a perfeitos espaços para atividades ao ar livre, de churrascos a corridas esportivas. Enquanto crianças se divertem nos diversos playgrounds espalhados pela cidade, jovens de coturno e maquiagem borrada saem das melhores casas noturnas do mundo, já com o sol a pino. Enquanto empresários enriquecem graças à especulação imobiliária, políticos respondem aprovando o congelamento do preço dos aluguéis por cinco anos.

Seja bem-vindo a Berlim, cidade de contrastes. E podemos continuar: Berlim é carrancuda, mas dançante; é cinzenta, mas cheia de gente criativa; é grande, mas silenciosa. Tem também a mais famosa das contradições: "pobre, mas sexy". Foi assim que o ex-prefeito Klaus Wowereit definiu a capital da Alemanha no início dos anos 2000. A cidade vinha de uma década de renascimento, depois de ter sido palco de um dos acontecimentos mais importantes do século 20: a queda do muro que separou a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental por 28 anos.

Em 9 de novembro de 1989, o responsável pela comunicação do Partido Socialista Unificado, que controlava a Alemanha Oriental, participou de uma conferência de imprensa na qual, como era praxe, informou as novidades aos jornalistas. Entre elas estava o fim das restrições de trânsito do lado comunista para o capitalista, mas mediante solicitação e com diversas condições. Ao ser questionado por um repórter sobre quando a medida passaria a vigorar, não encontrou nada a respeito em suas anotações e acabou respondendo: "Imediatamente".

Não era bem essa a mensagem que ele deveria transmitir, mas os alemães do leste imediatamente começaram a se aglomerar em torno do muro, exigindo que os postos de fronteira fossem abertos. Os guardas, também sem qualquer informação, cederam à pressão popular e liberaram a passagem. O resto é história. Este dia mudou os rumos do final do século 20, e, principalmente, a trajetória de Berlim, que pouco a pouco foi se tornando a cidade mais vibrante da Europa - depois da região da Baviera, é a cidade alemã mais visitada por turistas, registrando 15,1 milhões de pernoites em 2018.

Atraídos por aluguéis baratos, jovens sem muito dinheiro e sedentos por novas experiências começaram a chegar à capital alemã. Instalaram-se em squats (ocupações de imóveis abandonados), encheram a cidade de arte de todo tipo e criaram a Love Parade, festa de música eletrônica que chegou a juntar um milhão e meio de pessoas. Os governantes souberam aproveitar esse novo momento e Berlim rapidamente ficou conhecida por ser uma cidade criativa, artística e progressiva.

E quem não quer estar num lugar repleto de artistas, gente interessante, aluguéis baratos, cheio de história, onde tudo acontece? Foi aí que começou um processo de gentrificação, com aluguéis subindo e os antigos moradores sendo expulsos de bairros antes decadentes, como Kreuzberg ou Neukölln. Tudo por causa da chegada de estrangeiros com dinheiro, dispostos a pagar mais caro pelos imóveis.