08 de julho de 2026
Articulistas

Mãos

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Rumo ao centro da cidade, ganho atenção de uma cantina. O cheiro do pastel inspeciona o silêncio do meu regime dormido. Uma tarde de um sol à Van Gogh autoriza com êxito meu pedido. Limonada. Ao meu lado, uma família de cinco filhas divide alegrias com tubaína, empada e goiabada cascão.

A caçula, de olhar assustado, mastiga incertezas. Com ares de quem vai se erguer de um momento para o outro e inaugurar descobertas, ela pergunta aos pais o porquê de a palma de suas mãos ser mais clara que o resto do corpo. A mãe responde-lhe que nós negros somos assim por estarmos sempre de mãos postas a rezar.

A resposta materna parece não convencer os olhos de quem dela a vida mais retirou do que esperava. O pai, num silêncio pronunciável, conta o dinheiro, preocupado, com vincos próprios de uma testa franzina de quem se esforça para garantir à família raras alegrias.

Bernardo Honwana diz que Deus ao criar os seres humanos, mandava-os banharem-se num lago do céu. Após o ritual, todos ficavam branquinhos. Os negros, feitos pela madrugada, surpreendidos foram com a água fria. Impossibilitados do banho, molharam apenas as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para ao mundo.

A fala da mãe negra que explica à filha a cor da palma. O cabeleireiro negro que despenteia racismos dizendo "Respeite meus cabelos, brancos!". Machado de Assis, Luís Gama e Lima Barreto embranquecidos nos livros antididáticos. A faxineira negra que, limpando as manchas do balcão com água e sabão, tem a vida consumida na servidão. Abolida a escravidão, a cozinheira negra que, no alho, mandioca e feijão, continua ao pé do fogão. Da pele alva à pele alvo. Todos, do circunstancial ao 13 de maio, 25 de julho e 20 de novembro visitam minha reflexão. Entender-se negro. Do histórico sinal de resistência da dor ao patrimônio da cor. À música, culinária, religião, símbolos de intensa brasilidade. Históricas distâncias que nos unem.

Negro ou branco, nossos atos são feitos por mãos iguais. Mãos que alfabetizam, oram, que conduzem a semente ao intercâmbio com a terra. Mãos que zelam por eternidades, quando tudo é temporário. Mãos que reconstroem vidas, inaugurando movimentos de nova rotação. Mãos que, antes de serem pretas ou brancas, são seres humanos. Mãos que consertam, na constatação de que se a vida é uma vasta oficina, com possibilidade de consertos, há que se reconhecer que os primeiros reparos são imprescindíveis a nós mesmos.