07 de julho de 2026
Nacional

Espírito de

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

As comemorações de Natal e Ano-Novo transformam dezembro em um mês mágico, em que as pessoas, no geral, costumam ficar mais alegres e emotivas. Nessa época, se intensifica a divulgação de trabalhos voluntários, bem como o desejo de contribuir com o bem-estar do outro. A generosidade acaba sendo multiplicada e, em alguns casos, o ato se estende ao ano seguinte.

No Brasil, 7,2 milhões de pessoas realizam voluntariado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Os benefícios do voluntariado vão muito além dos sentimentos gerados pelas boas ações realizadas. Voluntários desenvolvem habilidades que podem ser usadas profissionalmente, exercitam sua cidadania e desenvolvem competências socioemocionais. Além disso, traz benefícios para a saúde física e mental", afirma Marcelo Nonohay, diretor da MGN Consultoria, empresa com foco em projetos de transformação social.

Não há estudos científicos que demonstrem se a solidariedade, de fato, é mais despertada no fim do ano. Especialistas no comportamento humano refletem sobre o tema com base nas experiências clínicas, seja com os próprios pacientes ou no que ouvem dos colegas de profissão.

"Eu vejo que as pessoas ficam mais emotivas, mais sensíveis. Alguns se deprimem porque, por ser reunião familiar, as ausências ficam mais evidentes. E tem toda a magia do Natal, do Papai Noel, dos presentes. Vejo muitas pessoas se mobilizando para que os mais vulneráveis tenham um Natal menos ruim, mais próximo do que teriam aqueles com mais condições", diz a psicanalista Luciana Saddi, diretora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

O psicólogo clínico Hélio Malka Y Negri, da Vittude, tem uma percepção semelhante. "De fato, existe uma vontade das pessoas de se mostrarem melhores nessa época de festa, especialmente por conta do Natal, porque o Brasil é um país basicamente católico e espírita, tem essa tendência", afirma. Mas ele faz uma ressalva: "não é isso que vejo na essência das pessoas".

Segundo o especialista, os atos de generosidade com o próximo são motivados mais pelo próprio bem-estar do que pelo do outro. "O tipo de vida que a gente está levando torna o indivíduo muito egoísta, mas isso não necessariamente é ruim, desde que saiba dosar o nível de egoísmo", pontua. Luciana indica o mesmo e afirma que os seres humanos são mais egoístas do que parecem, mas também são mais generosos.

Conforme disse Negri, ser egoísta não é completamente ruim, faz parte de quem somos. O ego é necessário para que nos preocupemos em fazer o bem para nós, desde que não prejudiquemos outras pessoas. Isso tem relação com autoestima e autocuidado. "Precisamos disso, nossa personalidade pede para que o ego seja fortalecido."

Outro ponto indicado pelos especialistas é que uma atitude solidária e voluntária busca, de forma inconsciente, diminuir a culpa social que todos nós carregamos. Quando vemos na rua mãe e filho pedindo comida ou sabemos que famílias passam fome enquanto temos fartura na mesa, de alguma forma temos sensação de culpa.

Esse sentimento pode impedir que a pessoa usufrua da felicidade, segundo Luciana, e atos generosos ajudam a reduzi-lo. "A pessoa se sente bem de fazer algo bom, é um tipo de reparação do próprio eu e também da capacidade de ele confirmar que é capaz de amar, ser bom e reconhecer o outro", afirma. "Isso faz bem para quem faz."