08 de julho de 2026
Turismo

Que fôlego - 1


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O rancho Tarumã, erguido de alvenaria em Porto Esperança-MT com a participação direta de dez sócios cotistas, foi muito bem construído e equipado com armários individuais para os sócios, ar condicionado em dois dos três dormitórios, cozinha com fogão industrial e demais comodidades para acolher os frequentadores com o melhor conforto que se pode esperar em uma moradia do Pantanal. É bem provável que tanta comodidade teve como objetivo estimular que ninguém saísse do rancho à noite para pescar. Talvez, o que se pretendia na ocasião do acabamento do rancho, era a permanência noturna dos frequentadores em torno da televisão para esgotar o estoque da conversa sobre a pescaria realizada pouco antes, durante todo o dia. Para a pesca, havia o dia inteiro à disposição, e a noite, após o jantar servido às 20h, o papo se desenvolvia na varanda do rancho e defronte a um aparelho de TV que ali estava para atualizar os fatos que se passavam longe dos limites do rancho. Todavia, como a pesca noturna tornou-se defesa aos sócios, escorada numa regra baseada na palavra de cada um, portanto frágil e sujeita a ser rompida sem qualquer penalidade, sua inobservância violava apenas uma convenção verbal entre os pescadores que estavam no rancho, sem nenhuma consequência, bem por isso e excepcionalmente, em certo dia ficou combinado entre João Costa Gomes, este escriba e o piloteiro Edson, quebrar o preceito da pesca à noite na tentativa de buscar pintados, peixes de hábitos noturnos, cuja captura no caniço era farta em algumas ocasiões. Que o diga a pessoa que, como nós, teve o privilégio de pescar no crepúsculo vespertino poitados na "boca" de escoamento de iscas nascidas e desenvolvidas nos lagos formados no campo durante a cheia do rio e despejadas na vazante do rio Paraguai, a exemplo da Estância Júlia, pequena fazenda no território paraguaio. Já naquela época os peixes nobres estavam desaparecendo do rio Paraguai, nos melhores pontos de pesca frequentados pelos piloteiros, lugares não muito distantes do rancho, sendo comum as caravanas de pescadores insistentes voltarem da pescaria frustrados com a escassês de peixes. Não era para menos, com tantos pescadores, barcos, e ruídos de motor de popa, os peixes que preferem viver no silêncio das águas refugiam à lugares mais distantes do barulho incessante.

Partimos em direção ao morro do conselho à tardezinha, mas não chegamos até onde ele imperava como majestade sobre alguns distantes e subalternos morrotes, porque o lugar escolhido para a pesca de peixe de couro era conhecido por Cabral, onde os Jaús defendiam o alimento durante anos até o dia em que pescadores insaciáveis, mais apropriado dizer predadores insaciáveis, sacaram das águas os últimos exemplares.

(Segue na próxima edição)

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril,

pescador aposentado.