Diz a antiga tradição cabalista que o desejo é o que nos move e o que mexe conosco. Somos desejos ambulantes, constantemente buscando preencher um de nossos anseios. O ser humano não moveria um único dedo se não fosse por algum desejo interno e nossos desejos mais profundos não se limitam a quinze minutos de fama, a uma descarga temporária de adrenalina ao fechar um negócio ou a aquele alívio temporário proveniente de um analgésico. Não queremos ser amados por nossos pares por um período apenas limitado de tempo. Não queremos ser saudáveis somente durante metade de nossas vidas. Queremos que nossos desejos sejam constantemente preenchidos.
O desejo está inserido em nossa essência e opera em três níveis: o animal, o racional e o espiritual. Estes três tipos de desejo são encontrados em todos os membros da espécie humana, no entanto, estão combinados em cada indivíduo em proporções diferentes e é isso que determina a diferença entre uma pessoa e outra. Essa diferença influi e determina nosso comportamento em sociedade e nosso desejo de receber.
Há quem tem o desejo de receber pelo simples fato de receber. Esse é o estado mais denso da realidade, no qual o desejo de receber se traduz em puro egoísmo. Nesse estado, a pessoa está centrada em si mesma, nunca quer doar nada e não dá a menor importância às consequências de seus atos. Esse desejo de receber somente para si é como uma droga altamente viciadora. Fica-se apegado à euforia que ela proporciona. Como outras drogas, o desejo egoísta tem diversos nomes de guerra. Dinheiro, fama e poder são alguns dos mais conhecidos. Mas, como qualquer substância que vicia, os efeitos prazerosos do desejo de receber somente para si, são transitórios e têm duração, progressivamente, mais curta.
Há quem dá com o desejo de receber algo em troca. É um estado superior ao anterior, pois, apesar de haver interesse, a pessoa começa a expandir sua realidade e assim, a ter consciência de seu semelhante. Doa sempre com relutância, muito menos do que pode e somente quando alguém muito próximo lhe pede. É um sub doador ou faz um compartilhar reativo. Há quem dá e sente satisfação pelo fato do outro receber. Esse estado é incalculavelmente superior ao anterior, já que quem alcança esse nível de altruísmo em seus atos, consegue vencer o seu egoísmo e expandir a realidade a todos os aspectos da vida. Não espera lhe pedirem, sente ou detecta quando alguém necessita de ajuda e toma a iniciativa de oferecer essa ajuda. A pessoa faz um compartilhar proativo.
Há quem recebe para dar sem esperar nada em troca. Neste estágio, a pessoa concretiza o objetivo da Criação. Transformar o egoísmo em altruísmo é conhecer a verdadeira sabedoria e nos faz sócios ativos do programa da Criação. Há ainda quem dá, aquilo que pode, sem saber a quem. É um compartilhar anônimo, um compartilhar sem ego. Esse é o compartilhar transformador que modifica não apenas o que você faz, mas, também, o que você é. Transformar quem você é não significa tornar-se algo fora da sua natureza. Significa redescobrir a sua verdadeira natureza, quem você realmente é.