O bicho deu um poderoso safanão na cauda, deixando o costado em todo o seu comprimento a lembrar um animal pré-histórico em breve exposição para soltar a linha e o anzol, intactos. Desapareceu num alvoroçado mergulho. A dúvida que permaneceu entre nós consistiu no porquê o jacaré, possuindo pulmões, pois peixe não é, conseguiu ficar na apneia durante tanto tempo. No dia seguinte, relatando o caso a piloteiros, escutamos um deles dizer que um turista (assim o pescador é chamado pelos piloteiros) teve um jacaré retido nas mesmas condições ao fato aqui descrito por pouco mais de 1h.
Tínhamos o hábito de reservar um dia da semana para fazer compras na cidade boliviana de Quijarro, vizinha de Corumbá. Naquela época, havia circulação de trem entre Bauru e Corumbá, e desta cidade, após a troca de locomotivas, a composição passava a ser boliviana, concluindo a viagem até a cidade de Santa Cruz de La Sierra. Pegamos esse trem e nos acomodamos no vagão de restaurante, apreciando pelas janelas a paisagem do pantanal dividida entre áreas alagadas, pastagens e morros, apreciando com o mesmo prazer, cerveja gelada servida pelo garçom. Para minha surpresa, o garçom era o Toninho, pessoa residente em Bauru, do tipo "boa praça". Ganhava a vida no desempenho de pequenas tarefas, fazendo de tudo um pouco. Gostava de assistir jogos do futebol varzeano em Bauru aos domingos pela manhã, e compunha a encrenqueira torcida da lendária equipe do Fortaleza nos acirrados jogos disputados em campos de terra. Bem trivial o Toninho entrar em brigas testemunhadas por marcas das escaramuças espalhadas pelo corpo, iniciadas por ele próprio ou gratuitamente para ajudar um amigo ou conhecido envolvido em desavenças. Seu temperamento lembra muito a do finado Sapé, amigo de todas as horas, desafeto de todos os minutos. Embora protagonizassem cenas parecidas, eram de gerações diferentes. Toninho atuava como defensor gratuito das pessoas consideradas amigas, encampando a defesa delas posicionado na linha de frente na desavença. Não escondia a hostilidade de gente que não gostava. A despeito do irresistível pendor para imiscuir-se em confusões, fora delas Toninho era pessoa bem humorada e brincalhona. Contou-nos, de sua última briga na qual recebeu um tiro nas costas, e por muito pouco o ferimento não o fez conhecer o lado oposto da vida. Sem nenhum recato e respeito aos viajantes que estavam no carro-restaurante, Toninho retirou a camisa para mostrar-nos com indisfarçável altivez a marca do furo causada pelo disparo de arma de fogo. Eram visíveis, também, nas costas desnudas de Toninho, além da marca do furo, algumas cicatrizes. No primeiro olhar pareciam cortes de faca que deslizou na pele, adredemente preparada para combates entre grupos inimigos. Perguntei a ele explicação para tantas cicatrizes nas costas e a resposta soou rápida, mais ou menos assim: "São sinais de facadas que levei numa briga há mais tempo. O tiro é mais recente". Que figura folclórica esse Toninho!