08 de julho de 2026
Articulistas

Alicate de inox

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Unha e carne, metade da laranja, manteiga do meu pão... Não importa a imagem utilizada, poderia ser até mesmo a da horrorosa tampa da panela, a verdade é que Mário e Marcela eram almas gêmeas. Incrível a afinidade que os unia. Marcela, no começo, até achava que havia uma forçação de barra do Mário. Sabe aquela malandragem esperta de dizer exatamente o que o outro quer ouvir? Aquele jeitinho sem-vergonha de pavimentar macio a avenida da paquera?

Depois, viu que não. Era afinidade sim. Total. Podem-se enganar os ouvidos, a alma não. E na alma ela sentia como era verdadeiro tudo o que ele falava. Inacreditável, enxergavam a vida com os mesmos olhos. Quase nunca um do outro discordava, brigar então, impossível. Amar o próprio espelho é bom demais para qualquer narciso. Tão carne e unha eram, que nenhum alicate de inox os separaria. Riam muito quando assim falavam.

Só havia um porém. Eram duas metades de laranjas que nunca haviam se encontrado. Uma metade desconhecia completamente o gostinho do suco da outra. Metades separadas pela internet. Tão próximos da vontade do dedo, mas tão longe do desejo do corpo: mais de mil quilômetros de desespero geográfico. Seis meses teclando, Marcela já não estava suportando aquela angústia. Eram lindos na fotografia? Eram e daí? Perfeitos na forma de pensar? Sim e daí? Daí, que ela queria muito mais. Queria que a sua metade fosse completada fisicamente pela metade dele. Queria a coisa inteira, que o virtual entrasse, enfim, no seu real. Que imagem, credo!

Chega de desculpas, parasse com a enrolação. Um mês, o prazo final. Comprasse a passagem para o aniversário dela, vinte anos. Dançariam coladinhos, as amigas invejando e eles valseando com velinhas acesas. Seria uma noite inesquecível. E se assim não fosse, outro convite: sumisse pra sempre da vida dela. Era pegar ou largar.

Mário pegou. Mas antes, ele precisava revelar uma coisa que ela desconhecia. Marcela querida, a imagem que vou lhe mostrar, agora, é forte. Prepare-se, pode ser o alicate de inox de nossas vidas. Eu a amo infinitamente, mas daqui para frente, nada mais poderei fazer. Tudo ficará nas suas mãos. Ou a carne fica com a unha ou vence o alicate. Marcela gelou diante da tela do computador. A imagem invadiu a tela do computador.

O que era aquilo? Coisa estranha. Uma moça de biquíni? Linda, tudo bem, mas e daí? Seria a rival? Se fosse, ela não teria a menor chance de competir com aquele monumento de mulher. Nada fazia sentido, até ler, embaixo da foto, a frase minúscula e acanhada: Marcela, perdoe o Mário, mas eu sou Maria!