09 de julho de 2026
Entrevista da semana

Um cantor de histórias

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

O som da música para o barítono Leno Munari é um pedaço de sua vida: a vocação descoberta já na infância vai além dos acordes. Quem ouve suas apresentações sabe que é algo que vem de dentro da alma. É um dom. Com talentos múltiplos, ele conta que a música e o gosto pelas línguas sempre correram em paralelo. E, hoje, é professor, tradutor, músico e compositor. A conversa com ele é como ter uma aula de música, com mil e uma referências a óperas e grandes canções clássicas mundiais.

Ouvir as histórias de Leno Munari é a prova inclusive que coincidências não existem e quando algo está impregnado no coração da pessoa, os caminhos se abrem e as coincidências são muitas. Ah! Quem estuda anjos diz que "coincidências não existem e, sim, sincronicidade". E, de anjos, Leno entende. Teve muitos ao longo de sua vida.

JC - Como começou o seu gosto pelo canto?

Leno Munari - Bom, eu posso dizer que comecei a cantar antes de ser alfabetizado. Minha mãe, Lucia Toffanello, de ascendência italiana, era da Igreja Assembleia de Deus e, aos 5 anos, eu e minha irmã, Dalva, pouco mais velha, cantávamos hinos, em dupla, perante a congregação. Eram hinos longos, com várias estrofes, muitos acordes... Você tinha que ter boa memória para não desafinar e não se perder na letra, coragem para se apresentar diante de uma igreja repleta e que tinha um serviço musical muito rico, com banda, coro, disciplina rígida... Minha mãe dizia "esse menino vai ser cantor, ou na igreja ou no mundo" (risos).

JC - Mãe sempre sabe das coisas...

Leno - Sim. Depois, minha segunda professora, Jamila Neme, um anjo bondoso na terra, organizou um coro a cappella (sem acompanhamento de instrumentos, só na voz) e eu me lembro e canto a música até hoje. Também me lembro das músicas que ilustraram a minha formatura, aos 11 anos.

JC - Suas memórias musicais são intensas.

Leno - Sim e me emocionam. Aqueles trompetes que eu ouvia ficaram na memória. Foi como ouvir Händel (compositor alemão) em tenra idade. Com o tempo, o gosto pela música foi só aumentando, as coincidências positivas ocorrendo. Éramos pobres, família grande, 6 irmãos, e nem rádio em casa nós tínhamos, mas o vento trazia o som de rádios da vizinhança. Seis da tarde: "hora da Ave Maria". Eu ouvia a Ave Maria de B. Somma, entre outras. Sete da noite vinha a abertura de Il Guarani, na Voz do Brasil. " Desliga o rádio", gritavam (risos). Mais uns anos e tínhamos rádio em casa e aí eu comecei a sintonizar a Rádio Eldorado. O prefixo musical de um programa erudito era o Overture de Norma (Vincenzo Bellini), em Gm.

JC - Mas profissionalmente você seguiu a carreira de línguas e não música?

Leno - Sou professor, tradutor juramentado, especializado em inglês, e ainda tenho cidadania italiana, o que fortalece o elo com o idioma.

JC - O idioma das maiores óperas, certo?

Leno - Sempre gostei de línguas estrangeiras. Minha mãe falava coisas no dialeto do Veneto. Daí meu interesse por óperas e composições italianas e pesquisar a história de meus "antenati" (antepassados em italiano) para o reconhecimento da cidadania italiana foi algo carregado de emoção. Línguas e música sempre correram em paralelo, e o desejo em ser proficiente me levou ao Golden State, na Califórnia, Costa Oeste americana.

JC - Ah é? Como assim?

Leno - Surgiu a oportunidade e eu não hesitei, fui me especializar lá. Tão interessante sonhar em Inglês (risos). Um domingo, caminhando, deparei com uma igreja presbiteriana. Foi como na música Califórnia Dreamin (I stopped by a church...). Um órgão de tubos era tocado, porém, em baixo som, acolhendo as pessoas. Impossível ficar de olhos secos. Sem dizer nada, uma senhora chegou, tocou o meu ombro direito e eu senti que ela dizia "seja bem-vindo". Nem preciso dizer que uma semana depois, lá estava eu cantando no coro da Igreja.

JC - Toca algum instrumento?

Leno - Sim. Meu primeiro violão meu pai comprou em 1970. Era um Giannini número 7. O conhecimento de violão me ajuda muito com as harmonias e me ajudou imensamente no teclado.

JC - O acesso às peças musicais era muito difícil e assistir a apresentações de alto nível era, geograficamente falando, impossível, não é?

Leno - De fato, não havia essa facilidade de agora, o Youtube, o Google, mas felizmente, sempre tive professores, alunos e amigos que apreciavam e tinham acesso à música clássica. Me sinto um privilegiado por nossos caminhos terem se cruzado, por terem sido meus "Angels of music". Então, a minha mais profunda gratidão a esses anjos.

JC - Arcanjos e querubins?

Leno - Sim! Pessoas musicalizadas, com um fantástico acervo de partituras, CDs, amplo material como folders e libretti, trazidos de grandes teatros do mundo, disponíveis para o deleite e estudo. Imagine você ter autógrafo de Roberta Peters e ItzhakPerlman no Metropolitan?! Na minha simplicidade, vivi momentos emocionantes, assistindo a várias óperas no Municipal, em SP, e a concertos na Sala São Paulo.

JC - Algum momento em que uma ajuda o marcou profundamente?

Leno - Sim. Antes de tudo isso, aos 3 anos, numa noite, tive uma crise de sonambulismo, e fui caminhando em direção a um riacho. Providencialmente, uma vizinha, D. Santa Aio, vinha de encontro pela trilha e me resgatou. Já havia ali, toda a dramaticidade de "ma per buttarmi in Arno" (Gianni Schicchi). Já em Bauru, em 2005, fui convidado a integrar o Conjunto Sonia Berriel, a quem tenho uma gratidão imensa.

JC - Como foi seu trabalho ao lado dela?

Leno - Foi uma experiência fantástica estar sob a regência da maestrina Sonia, cantando em casamentos, formaturas, missas solenes, 3 recitais do Coral Arte Viva, canais de TV como Rede Vida e outros. Há um ditado em inglês que diz: "When words fail, music speaks" (quando as palavras falham, a música fala), assim, por várias vezes, levamos o nosso canto a famílias que atravessavam a perda de um ente querido, desejando que a música fosse bálsamo para aquele momento de dor. Foram sonoros e maravilhosos anos de muito aprendizado, em que pude pôr em prática o meu dom de criar harmonia, de cantar solos, em duos, a 4 vozes, compartilhando o palco e o momento com excelentes "luminaries" (iluminados) do canto.

JC - Planos para o futuro?

Leno: Sim! Continuar a lecionar e a cantar. Há um ditado no meio musical que diz: "Os maestros ficam bons após os 60 anos". Espero que isso funcione também para os barítonos (risos).