08 de julho de 2026
Esportes

Clima adverso


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Conhecido como "The Happy Slam", o Aberto da Austrália começará na noite deste domingo (19), pelo horário de Brasília, com dificuldades para manter a fama de o mais feliz dos Grand Slams, principalmente pelo bom tratamento dado aos tenistas. A tradicional competição enfrenta cobranças e preocupações em razão da má qualidade do ar, em razão dos incêndios no país, e a insatisfação dos tenistas que jogaram o qualifying diante da fumaça que alcançou Melbourne na semana passada.

A situação difícil vivida pela Austrália atingiu seu auge no quesito esportivo na terça-feira (14). Logo no primeiro dia do quali, após seguidas demonstrações de preocupação por parte dos atletas, a eslovena Dalila Jakupovic sofreu uma crise de tosse em quadra. Ela caiu de joelhos na quadra e abandonou sua partida. "Eu simplesmente não conseguia respirar mais e caí no chão", disse a tenista.

Em seguida, tenistas como o local Bernard Tomic e a canadense Eugenie Bouchard afirmaram ter dificuldade para jogar suas partidas. O tenista da casa pediu atendimento médico porque estava com problemas para respirar. Além disso, um boleiro passou mal. A badalada Maria Sharapova, por sua vez, interrompeu um jogo de exibição pelo mesmo motivo.

CRÍTICAS

Preocupada, a organização do Aberto da Austrália interrompeu treinos e adiou o início dos jogos do quali nos dois jogos seguintes. Mas isso não evitou as críticas. A mais dura delas veio do britânico Liam Broady. O atual 234º do ranking disse que tenista do quali são tratados como animais. "O e-mail que recebemos da ATP e do Aberto da Austrália foi um tapa na cara, dizendo que as condições eram 'jogáveis'. Eles estão sãos?", questionou.

Sobrou até para Roger Federer e Rafael Nadal, ambos membros do Conselho dos Jogadores da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Eles foram criticados pelo canadense Brayden Schnur por não atuarem em favor dos jogadores que disputaram o quali em condições adversas. "Roger e Rafa são um pouco egoístas ao pensar em si mesmos e em suas carreiras. Não estão pensando no esporte ou tentando fazer o que é bom para o tênis", disse o 103º do mundo.

O clima no torneio só melhorou na sexta-feira (17), quando a organização apresentou aos tenistas sua política para enfrentar a má qualidade do ar, a ser medido diariamente numa escala de 1 a 5. O número 1 significa "boas condições de jogo" e o 5, ambiente inadequado que poderá causar até a suspensão dos jogos

"A qualquer momento o árbitro pode decidir suspender, manter ou retomar o jogo de acordo com esta política e em absoluta discrição", informa a organização, em comunicado. Nas três quadras com teto retrátil, os jogos serão interrompidos para que sejam cobertas, sendo retomados assim que a qualidade do ar estiver abaixo do nível 5. Quando se decidir pela retomada de uma partida, os tenistas terão 30 minutos para voltar.

A escala vai se basear na análise científica do que é chamado de "classificação de partículas finas", as mais perigosas em suspensão no ar quando há incêndios. "Quanto menor a partícula, mais tende a penetrar profundamente no pulmão e nas vias aéreas. E isso causa sintomas respiratórios, como falta de ar. No limite, a falta de ar pode causar até um quadro de pneumonia e infecção", explica a pneumologista Suzana Pimenta.

"No caso dos atletas, os sintomas são piores porque, quando estão em atividade, apresentam frequência respiratória maior. Assim, vão inalar maior quantidade de partículas", afirma a especialista. "A absorção de partículas causa alterações no equilíbrio do pulmão. Altera a acidez das vias aéreas e a produção de muco, que fica mais grosso e é mais difícil de ser eliminado. As células pulmonares, inclusive as de defesa, acabam tendo mais dificuldade para funcionar."

MELHORA

Funcionário da Federação de Tênis da Austrália, que organiza o Grand Slam, o brasileiro André Sá minimizou as reclamações dos atletas. "Não houve jogo do quali fora das condições adequadas. Sei que era difícil argumentar, porque o ar estava embaçado nas ruas, mas as medidas usadas pela organização apontavam condição boa para jogar", disse o ex-tenista.

"Agora as condições estão praticamente perfeitas. A chuva dos últimos dias limpou o ar. A visibilidade e a qualidade do ar estão dentro dos padrões", explica Sá, que está em Melbourne. No entanto, ele admite que é difícil fazer previsões. "Vai depender do vento. Não dá para controlar. Temos previsão de chuva para segunda e terça e isso deve ajudar mais ainda. De qualquer jeito, a organização colocou médicos à disposição, principalmente para quem tem problemas respiratórios."