10 de julho de 2026
Regional

Melatonina contra o câncer de ovário


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Botucatu - Mais que estimular o "sono dos anjos", a melatonina também atua como um poderoso antioxidante natural e anti inflamatório. Este hormônio, produzido pela glândula pineal, localizada bem no meio no cérebro, é essencial para a regulação do nosso "relógio biológico". Esta substância tem chamado atenção de pesquisadores do mundo todo, justamente pelo seu potencial de combater radicais livres (moléculas liberadas pelo metabolismo do corpo e que provocam envelhecimento e morte celular) e, por sua vez, inúmeras doenças. Entre elas, o câncer.

O professor Luiz Gustavo Chuffa, do Departamento de Anatomia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu (IBB), por exemplo, testa há cerca de três anos os efeitos da melatonina no combate ao câncer de ovário. Os testes têm sido realizados in vivo (cobaias) e in vitro.

Ao que tudo indica, a melatonina, quando produzida em altas concentrações no período noturno, permite que a célula tumoral tenha um metabolismo semelhante ao da célula normal. Diferente do que é observado durante o dia, onde ela continua a exibir o fenótipo metabólico tumoral (efeito Warburg).

"Até o momento, observamos que a melatonina induz a morte de uma linhagem celular de câncer de ovário e esses efeitos parecem ser dependentes dos seus receptores. Estamos investigando alguns alvos-chave do metabolismo mitocondrial responsável pela glicólise e pela fosforilação oxidativa (etapa de metabolismo da célula) para entender melhor esses eventos e verificar prováveis mecanismos de ação da melatonina", comenta.

De acordo com o biólogo, alguns tipos de tumores parecem ter envolvimento direto com a quantidade de melatonina produzida pelo corpo. Apesar de já saber-se que indivíduos com câncer dormem pouco e tem baixos níveis de melatonina ainda não se sabe se o inverso é verdadeiro. Ou seja, se aqueles que dormem pouco estão mais propensos a desenvolverem câncer.

"Hoje, o que podemos dizer é que um sono de qualidade, associado a boa produção de melatonina, deve ter um papel protetor contra o desenvolvimento do câncer - incluindo, claro, outros fatores envolvidos. No caso do câncer de ovário, somente quando suplementados com melatonina é que conseguimos matar as células e atenuar a invasão", complementa.

Melatonina como suplemento

Esta pesquisa conta com a colaboração de uma das principais sumidades no assunto: o professor Russel Reiter. O biólogo norte-americano, docente em Neurociências e Anatomia na Universidade de Ciências da Saúde em San Antonio, Texas (EUA), ele é especialista nos aspectos protetores da melatonina. Iniciou seus trabalhos pouco tempo depois da caracterização da molécula da melatonina, em 1958.

Segundo ele, dormir menos pode de fato trazer consequências mais sérias à saúde do ser humano. Por isso tem sido um dos principais defensores da suplementação de melatonina exógena, ou seja, fabricada artificialmente pela indústria farmacêutica [por se tratar de um hormônio endógeno, produzido naturalmente pelo corpo, não é patenteável]. Apesar de ser liberada sua comercialização em vários países, o produto ainda não é regularizado pela Anvisa, no Brasil.

"Nos EUA, a melatonina é vendida como um suplemento sem receita. Na Europa, é vendida por prescrição. Na China, está disponível como um 'mercado de balcão'. Considerando seus inúmeros benefícios, sinto que a melatonina é extremamente subutilizada. Deve estar prontamente disponível visto que tem muitos benefícios e é muito menos tóxica que outros medicamentos, como por exemplo a aspirina", argumenta Reiter.

"Acredito que ainda tem muito a ser explorado, mas até o momento a melatonina já demonstrou ter muitas atividades benéficas. Importante salientar é que cada caso é um caso em termos de tratamento. Então, a consulta com o especialista sempre deve ser seguida por mais que a melatonina não tenha efeitos colaterais. Vale a pena destacar que seu consumo excessivo pode aumentar a sonolência no período diurno", pondera Chuffa.