11 de julho de 2026
Geral

Da manivela ao laminador elétrico: ourives atravessa 6 décadas ativo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Nem mesmo um assalto que lhe deixou de herança um projétil alojado no corpo ou o infarto sofrido no final do ano passado fizeram Elias Batista se afastar de suas lentes de aumento e de todo o aparato que utiliza para produzir e consertar joias e recuperar relógios, inclusive peças antigas de colecionadores. Aos 71 anos, o ourives continua indo diariamente à sua loja, na quadra 3 da rua Virgílio Malta, onde ainda exibe habilidade no minucioso trabalho iniciado há mais de seis décadas.

Hoje, Elias conta com a ajuda da filha no atendimento aos clientes e do genro, que abandonou a carreira como vendedor de automóveis para dar seguimento ao legado da família no ramo da ourivesaria. "Antigamente, eu só ia para casa quando já estava noite, trabalhava de domingo e feriado. Agora, meu genro assumiu praticamente todo o trabalho, mas gosto de ficar na loja. Só vou parar de vez, quando não conseguir mais", comenta.

Ele conta que começou a aprender o ofício quando tinha apenas oito anos, com um locutor de rádio que decidiu montar uma pequena fábrica de joias na esquina da rua Quintino Bocaiúva com a Aviador Gomes Ribeiro. "Minha irmã trabalhava com ele e eu ia levar almoço para ela. Ficava olhando a turma trabalhar e aquilo me encantava. Um dia, recebi o convite para me juntar a eles e, mais do que depressa, aceitei", relembra.

No início, Elias, então aluno da escola Rodrigues de Abreu, trabalhava somente no período da tarde. Quando chegou à adolescência, por volta de 14 anos, acabou assumindo a coordenação de toda a produção da fábrica, que vendia peças por atacado para representantes de São Paulo e Minas Gerais.

ASSALTO

O estabelecimento, contudo, fechou as portas anos depois e Elias foi aprender a consertar relógios. Com o conhecimento adquirido, já na década de 1970, decidiu montar o próprio negócio na avenida Alfredo Maia, na Vila Falcão.

"Foi nesta loja que fui vítima de um assalto. Foi em 1981, no final do expediente. Eram três assaltantes e acabei levando um tiro nas costas, o que me custou um rim. Fiquei com dificuldade para andar por uns oito meses, mas não parei de trabalhar", revela.

Já no atual endereço, na Virgílio Malta, o ourives sofreu outro susto. No Natal de 2019, após um almoço com a família em Arealva, ele passou mal e foi levado às pressas para um hospital de Bauru. "Senti uma dor forte, que começou a subir para o braço. Ainda passei em casa para pegar documentos, porque não pensei que fosse algo tão grave", relembra.

O diagnóstico, contudo, era de infarto e Elias precisou colocar um stent para evitar a obstrução dos vasos sanguíneos. Já de volta ao trabalho novamente, o ourives faz um balanço de sua longevidade no ofício e das transformações por quais passaram a profissão que abraçou ainda na infância.

Muita coisa, de fato, mudou de lá para cá, dos tempos em que ele usava manivela até hoje, em que conta até com laminadores elétricos. "Mudou completamente. Antes, era tudo manual. A gente fazia tudo, até a fundição do metal. Derretia o material, fazia lâminas, cortava as fitas e fazia as peças. Hoje, os relógios, por exemplo, têm circuitos eletrônicos e é algo que meu genro domina muito melhor do que eu. Mas, todo dia, sempre aparece algum serviço diferente. E sempre tenho algo a aprender", completa.