09 de julho de 2026
Entrevista da semana

No balanço dos navios, o equilíbrio do corpo

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

No logotipo do estúdio de pilates funcional da educadora física Lindse Bianca há, dentro de um triângulo, a imagem de uma mulher se alongando, com a extremidade dos pés apontando para cima e terminando em uma chama. "Foi desenhado para captar a essência do que eu acredito: a busca da trilogia do conhecimento, com equilíbrio entre corpo, mente e espírito. A mulher sou eu, sempre em busca do conhecimento, sem nunca deixar apagar a chama dessa busca".

Ela conta que para chegar até aqui, com 12 anos de profissão, trabalhou bastante e se sacrificou outro tanto: cursou educação física em Barra Bonita, que era o local mais perto com o curso à época. Ia e voltava toda a noite.

A professora conseguiu unir o seu hobby, as viagens, com a profissão e, hoje, como autônoma, tem "férias remuneradas", trabalhando em transatlânticos, em cruzeiros.

Jornal da Cidade: De onde vem seu nome? A chamam de Lindse ou de Bianca?

Lindse Bianca: Pode parecer incrível, mas a união dos dois nomes deu certo de forma que me chamam mesmo de Lindse Bianca. É assim que sou conhecida. Agora, o Lindse só a minha mãe, Maria Amélia, e meu pai, Paulo, para explicarem: eles é que me batizaram assim (risos). Na verdade, sei que minha mãe admirava uma atriz norte-americana com esse nome.

JC: Lindsey ou Lindsay?

Lindse Bianca: Não sei também (risos), nem sei quem é a tal atriz hoje em dia. Só sei que acabou "abrasileirado". Virei Lindse (risos) em bom português. Nasci no Paraná. O registro é de lá.

JC: Mas se considera bauruense?

Lindse Bianca: Sim, vivo aqui desde os 3 anos. Criada ali na Vila Cardia, estudei no Santa Maria, escola pública excelente. Era referência, na minha época.

JC: E como se encontrou com o pilates?

Lindse Bianca: Então, me formei e fui fazer a pós-graduação na Universidade Gama Filho e tive a oportunidade de ir para o Fitness Brasil (a mais tradicional convenção de educação física de então). Ali conheci várias técnicas e uma delas era o pilates com a Inelia Garcia, a mexicana que introduziu o verdadeiro pilates no Brasil. O pilates ajuda na boa respiração, deixa a pessoa mais calma, ajuda em inúmeras patologias, muitas crônicas. O mais interessante é quando a pessoa que faz um trabalho personalizado e aprende a ter o controle do corpo, conta que, imediatamente, dorme muito melhor, respira melhor.

JC: Você mesma tem a postura ereta...

Lindse Bianca: É o que a técnica da Inelia ensina: a manter-se ereto, a ter o controle do corpo. E tem mais: o pilates, quanto mais personalizado, melhor. O que não quer dizer que não faça bem quando praticado em grupo.

JC: Exatamente o que você faz nos navios?

Lindse Bianca: Quando o passageiro escolhe a rota, já sabe o que o navio oferece, além de relaxar numa paisagem diferente, no caso o mar, vendo ao redor apenas o oceano ou costas paradisíacas de muitos países e ilhas, a oportunidade de também manter, ou mesmo iniciar, um programa de condicionamento físico.

JC: E como exatamente você fez para fazer parte dessa empresa de cruzeiros?

Lindse Bianca: Naquela convenção que fui, em 2008, havia um estande da Costa Cruzeiros e dizia "venha trabalhar a bordo". E eu fui (risos), me inscrevi. Passei pelo qualifying e de lá para cá,  desde 2009, não parei mais. Em geral, sou contratada por temporada. Faço a rota Brasil, Uruguai, Argentina. Já fiz cruzeiro do Roberto Carlos (risos), muito bom. E fiz também a travessia Brasil-Europa. Do Rio de Janeiro até o porto de Savona, na Itália, parando em Málaga, Tenerife (Espanha), desembarcando em Gênova, outro porto da Itália.

JC: E como faz com a língua?

Lindse Bianca: Então, o tour que faço é mais em espanhol. Então a língua, em geral, não é barreira. Para a travessia, fui me aperfeiçoar, estudar inglês. Mas de um jeito ou de outro a gente se entende. Tem duas coisas maravilhosas nesse emprego temporário. A primeira, eu desfrutar de "férias remuneradas". A segunda é conhecer pessoas e culturas diferentes. Imagina o que é se comunicar com um croata, que fala um dialeto da região (risos)? 

JC: E nessas viagens já enfrentou perrengues?

Lindse Bianca: Sim, vários (risos), como o de navio adernado, quando o mar está muito agitado e ele fica tombado para um lado só e viaja um bom tempo assim. Não que vá tombar, mas quem tem problemas fica bem mareado, passando mal. Já perdi mala. Me vi, de repente, sem meu notebook, minhas coisas de trabalho e todas as roupas. Estava só com os documentos. A sorte é que a pessoa que pegou enganada devolveu alguns dias depois. Isso foi na Itália. Ah, também já enfrentei o último furacão em Cancún. A gente fazia a rota Miami-Caribe. O que me preocupou não foi o furacão em si, mas o medo de um eventual tsunami. E teve também um terremoto na Cidade do México, estávamos desembarcados, em terra.

JC: Se percebe que você é empoderada.

Lindse Bianca: Então, isso em mim é natural, antes mesmo que o empoderamento entrasse na moda (risos). Mas tem a ver com minha criação. Sou a mais nova de três irmãos e tive primos que cresceram com a gente. Então, o universo masculino foi uma realidade para mim. Sem contar que minha mãe é minha maior incentivadora. Eu chego com a ideia de uma viagem e ela fala: "vai mesmo". Isso é ótimo.