O licenciamento ambiental é um instrumento para permitir a alteração de ambientes, ecossistemas e inserções em biomas frágeis por meio do princípio da precaução e para que o resultado seja o de menor impacto possível. Não é, portanto, ação para impedir o desenvolvimento econômico. Pelo contrário, uma vez que o Brasil vinha praticando, ainda que precariamente, o licenciamento ambiental de forma harmônica. Quando houve disputas e denúncias, sempre foram contra os que não respeitaram os acordos e causaram danos ambientais maiores que os previstos.
Deve haver uma boa avaliação técnica das condições ambientais de um local para a instalação de um empreendimento. As condições são no espaço e no tempo, pois há que se considerar o desdobramento da nova atividade, tal como afluxo de veículo e pessoas, demandas futuras por recursos naturais e impactos que possam causar em outros locais. As queimadas na Austrália foram exemplo de que a fumaça pode percorrer boa parte do planeta. A devastação ambiental na Amazônia leva a mudanças no regime de chuvas aqui no Sudeste. Exemplos não faltam das relações intrínsecas - e muitas vezes precárias - entre os diversos ambientes e ecossistemas de nosso mundo.
A participação da população nos órgãos que ditarão o licenciamento é fundamental, mesmo que sem o conhecimento técnico, pois trará os anseios e esperanças sociais e políticas daquela comunidade diretamente impactada com as mudanças. Em Lorena, por exemplo, a sociedade civil conseguiu impedir a instalação de uma estapafúrdia termelétrica em fundo de vale, local no qual não haveria dispersão dos poluentes, porque os engenheiros da empresa defendiam que os ventos soprariam por dentro das montanhas, ignorando a presença da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira. Isso já completou uma década, quando o governo federal era outro.
No entanto, o governo atual promove o esvaziamento de tais órgãos, tanto não nomeando ambientalistas, como não convidando governadores para reuniões e instâncias de decisão. Anti-democracia fascista explícita. A política do quanto pior, melhor, do governo Bolsonaro e seus míticos seguidores produz ao menos algo de inovador: a convergência de discursos antes opositores entre si. O manifesto de ex-ministros do meio ambiente, de diferentes pensamentos e condutas ideológicas, recentemente publicado, defendendo "um pacto pelo licenciamento ambiental" mostra que ainda há vida inteligente e atuante nas esferas políticas, porém longe das esferas de decisão. As vozes ainda lúcidas deste país.