08 de julho de 2026
Cultura

A Inveja


| Tempo de leitura: 1 min

No fundo das tuas costas

mora um dardo assinalado sem doer:

míssil estacionário para explodir desacelerado

a cada mau olhado que te vê.

E quem te olha é teu próximo,

teu amigo quase parente,

que desejando ter o que tens somente,

ambiciona ter o teu ser.

Quando nele silva a serpente secreta

que nem ele se dá conta,

a sopa da inveja é um mar vagaroso

que, aos poucos, engrossa-se lodoso

procurando comida pronta.

A frustração é a principal embarcação

fadada a conquistar silente,

traiçoeiramente,

a vitória preciosa alheia,

retirando das tuas veias teu precioso ouro.

Mas esse desejar é tolo

porque o ouro do outro,

quando roubado, é ouro de tolo,

se já está destinado.

A inveja que ficam sentindo

do quintal vizinho

repleto de passarinhos

é apenas olho mesquinho.

Perdoa-lhe este mal,

pois tu também te invejas

quando abres a janela

com a alma em poço de cisterna

e em tua praça de guerra,

lá nos domínios íntimos,

buscam as feras os píncaros

de outras costas próximas,

mas, esta moral sórdida, escondes

num telhado de flandres

para que ninguém veja,

exceto aquele que deseja

ver-te como és:

ser humano de convés

mas que tem também um lodo

preso num calabouço.

Juarez Gomes de Sá