08 de julho de 2026
Articulistas

Babás eletrônicas

Maria América Ferreira
| Tempo de leitura: 2 min

"Alô, alô, chamando, Terra".

Nas décadas de 80, 90, a televisão era considerada a babá eletrônica dos bebês. Era comum ouvir alguém dizendo que as mães colocavam as crianças na frente da tevê e as deixavam horas, assim ficavam com mais tempo livre. Pois bem, de lá para cá houve uma evolução absurda da tecnologia e, atualmente, a babá eletrônica é o celular ou o Tablet. Porém, esta babá mais nova é capaz de causar danos irreversíveis nas crianças, e talvez seja a responsável por criar uma geração de robozinhos.

Essas observações nos levam a uma série de reflexões e a primeira delas é que os pais não estão dando importância aos alertas feitos por especialistas, em geral psicólogos, pediatras, neurologistas e outros. Todo mundo acha uma graça ver uma criança com os dedinhos no celular. Há que se considerar também que as crianças estão pulando uma importante etapa da vida, justamente a de ser criança, desenvolver o raciocínio, a parte motora e, através de brincadeiras lúdicas, a convivência com outras crianças.

É comum entrar em um restaurante e ver uma família com uma criança mexendo no celular. Enquanto os pais comem vorazmente, ao lado dos pequenos tem um prato com algumas batatas fritas, uns grãos de arroz, tudo esfriando e murchando. Quem vai comer isso? Ninguém, muito menos uma criança. E quando surgem os problemas de saúde, a causa estava bem na frente dos pais, que não sabem por que seus filhos estão anêmicos, irritados, etc. Por sorte, essas crianças passam um tempo na escola, onde se presume, deixam a tecnologia de lado. Certamente, a cabecinha delas, especialmente dos com idade de creche até os cinco ou seis anos, fica bem confusa, afinal ela experimenta situações distintas muito rapidamente. Da escola para a casa tudo muda radicalmente.

Por outro lado, é possível detectar de forma tímida, porém real, a preocupação de setores familiares e escolares tomando consciência dessa situação e tentando reverter o quadro. Há grupos buscando resgatar as brincadeiras de criança, há famílias propondo novas atividades para tirar a criança da frente dos aparelhos. Mas ainda é pouco.

A cena que ficou gravada e que resultou nestas reflexões foi presenciada em um supermercado, em um domingo pela manhã. Pai e filho, provavelmente aproveitando o dia juntos, estavam na fila do caixa depois de comprar algumas guloseimas. Enquanto esperavam a vez, o pai 'bisbilhotava' no celular e a criança tentando conversar sem ser ouvida. De repente, o garoto agarrou o carrinho de compras, que o pai empurrava apenas com uma das mãos, e começou a falar "alô, alô, Terra chamando"... O pai todo sem graça deu uma olhadinha torta para ver se alguém tinha visto e discretamente guardou o celular no bolso. O garoto apenas sorriu satisfeito.