08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Gaiola de pássaros

Gilvandro Nunes da Silva (Nino) com apoio de Hilário Nunes.
| Tempo de leitura: 3 min

Durante quase minha vida toda, gostei de passarinhos, na minha juventude cheguei a ter mais de quarenta gaiolas em casa, com as mais diversas linhagens, mesmo aqueles que não eram autorizados pela lei, eu os tinha, pois sempre encontrava alguém disposto a comercializar essa equivocada transação. Fazia escambo, comprava, vendia, e assim cada vez mais ia mesclando minha "coleção", minha revoada. Para me enganar fiz no corredor de minha casa um grande viveiro, onde eu entrava, os alimentava e poderia com preponderada ignorância mostrar meus troféus, quanta pobreza de espírito...

Quatro anos com esse viveiro "grande", que no princípio para mim, não os deixava presos como na gaiola, outro erro crasso, todavia o tempo dentro de sua inexorabilidade me acusou também desse abuso contra os "bichinhos" e aos poucos eles foram embora, habitando metaforicamente o céu dos passarinhos

O tempo foi passando, e fui entendendo lentamente o porquê não devemos por pura ganância tê-los presos em gaiola: 1º) Como a maioria dos pássaros brasileiros, ou não podem ser liberados para criação pelo Ibama, ou só é possível a muito custo (financeiro e outras burocracias), caso contrário a criação poderá ser caracterizada como crime, que no meu caso, o era; 2º) Alguns pássaros, principalmente quando não são mais jovens, demoram, ou não se adaptam bem ao ambiente de uma gaiola; quem nunca viu um pássaro se debatendo, muito assustado preso?; 3º) Dependendo de como o pássaro foi adquirido e da sua espécie, eu estaria colaborando, diretamente com o tráfico de animais e os maus-tratos advindos disso. Duas cenas me marcaram muito: uma, foi a de um homem flagrado com várias gaiolas com filhotes, tentando soltá-los em vão, no tentame de se safar do crime, e a outra, numa situação invertida, um ser humano preso numa gaiola, gritando socorro, e um pássaro ao lado, lendo jornal, imaginando que aquele humano estava cantando alegremente

Quero dizer ainda que não me cabe julgar quem gosta, cria, vende pássaros, vive desse expediente, legalmente ou não, cada um segue com sua consciência, que nos cobra amiúde. Hoje sei que essa minha tendência duvidosa, era danosa para todos e claro, principalmente para os pássaros, e já beirando a melhor idade, entendo cultivar pensamentos e atitudes que produzam na prática e no espirito, menos algozes e mais amigos, antes tarde do que nunca.

Este prefácio tem objetivo e nos remete a nossa dificuldade em mudar nossos maus hábitos, de como eles são arraigados em nós nessa e em idas e futuras encarnações. Sabemos o quanto eles nos são prejudiciais, mas os cultivamos como se fossem nossos hóspedes, gostamos deles, os alimentamos com rancor, ódios, egoísmos, etc.; olhamos, julgamos as imperfeições de nossos pares, por vezes enxergamos o cisco nos olhos dos outros, mas não vemos em nós a trave encravada! Faço um desafio: pense um pouco e tente dizer a si mesmo cinco falhas, erros ou imperfeições que acha que tem.......três? Difícil né?

Mas como sabemos que "Das Ovelhas que Meu Pai me Confiou Nenhuma se Perderá", todos nós independentemente do nosso passado escabroso, em determinado momento de nossas vidas, pela experiência, pela reforma íntima, que nada mais é que um auto avaliação, uma autocrítica, que reiteradas vezes soçobra, começamos de novo e um dia com persistência, "obtemos êxito", como gostam de dizer meus pares policiais militares.

Hoje não tenho mais pássaros e gaiolas, prefiro ouvi-los soltos. Com o tempo, desvencilhei-me paulatinamente desta situação, mas confesso que a fila é grande e não sei se terei tempo de me livrar de todos meus defeitos, mas acredito que temos que começar, como por exemplo, para subir uma grande escadaria, iniciamos pelo primeiro degrau, e aos poucos, tropeçando, voltando ao anterior, seguimos e adiante conseguimos ver o sol em sua plenitude e aí teremos a certeza que somos um pouco melhores. Neste mundo de provas e expiações, por enquanto é normal ter defeitos, só não é normal alimentá-los.