'Descendentes' das primeiras salas de bate-papo surgidas na internet na década de 1990, os aplicativos de relacionamento caíram nas graças de boa parte da população com a promessa de trazer mais eficiência na busca por um par - seja para um contato mais casual ou um compromisso duradouro.
Somente o Tinder, um dos aplicativos mais conhecidos, já contabiliza mais de 10 milhões de usuários no Brasil em menos de uma década de funcionamento.
Com tanta gente 'disponível' assim, realmente parece difícil acreditar que não exista ao menos uma pessoa capaz de agradar aos olhos e ao coração. E, para ampliar estas chances, a regra é clara: os usuários precisam lançar mão de suas melhores estratégias de marketing pessoal para se 'vender' bem.
Uma boa câmera, um bom ângulo, um filtro que favoreça e uma autodescrição criativa são alguns dos ingredientes que não podem faltar na receita para alcançar os desejados 'matches' (quando duas pessoas se curtem e se aprovam mutuamente).
Professora do Departamento de Ciências Humanas da Unesp de Bauru, a antropóloga Larissa Pelúcio estuda o tema e destaca que é preciso ir além da superficialidade e do julgamento fácil para compreender o fenômeno, que nada mais é do que reflexo das transformações do comportamento humano. Sua tese de doutorado resultou no livro "Amor em tempos de aplicativos", da editora Annablume, "É preciso tirar estas relações intermediadas por aplicativos do campo da negatividade, da demonização, como se elas fossem piores ou menos legítimas do que as que existiam antes das redes sociais digitais", destaca.
Em uma análise mais apurada sobre esta ferramenta, em que as pessoas, de fato, se apresentam inicialmente tal como um produto, devem ser considerados aspectos importantes que compõem um pano de fundo.
Entre eles, estão o próprio avanço da tecnologia digital, com o advento dos celulares móveis e da internet de banda larga; a maior liberdade sexual, especialmente das mulheres; e as transformações da noção de tempo, que impulsionam as novas gerações a serem mais imediatistas e buscarem maior eficiência nos resultados.
SEGMENTAÇÃO
Neste sentido, os aplicativos oferecem mecanismos úteis, como filtros por idade e localização geográfica, fotos e informações preenchidas pelos próprios usuários, que dão certa noção de compatibilidade em razão do grau de escolaridade, profissão e hábitos de vida.
"Assim, este ambiente mercadológico, criado a partir desta segmentação, vai disseminando uma nova subjetividade amorosa, em que o usuário é convocado a ser uma espécie de empreendedor de si mesmo", acrescenta Larissa.
O psicólogo Sandro Caramaschi, professor do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, reforça que os aplicativos tem a finalidade de encurtar caminhos para identificar um 'crush', à medida que os usuários não precisam mais contar meramente com a sorte ao circular em um bar ou casa noturna.
Por outro lado, o funcionamento destas ferramentas ainda guarda relação com a paquera 'à moda antiga', em que as pessoas se produzem com sua melhor roupa, o melhor perfume e apresentam a melhor versão de si ao alvo a ser conquistado.
"É praticamente a mesma ideia, com a diferença de que, com o maior leque de possibilidades dos aplicativos, os relacionamentos tendem a ser, geralmente, mais superficiais, menos duradouros. Porém, as pessoas continuam se encontrando e procurando seu parceiro ou parceira ideal", observa, salientando que os apps também abrem uma nova oportunidade para pessoas mais velhas, que ficaram viúvas ou se separaram, recomeçarem sua vida amorosa.