11 de julho de 2026
Cultura

'Cultura deve ser a espinha dorsal da construção de políticas públicas'


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"'Eu sou apenas um rapaz latinoamericano'... Eu brinco tentando parafrasear Belchior, na verdade eu sou mais um garoto de periferia, preto, que conseguiu de alguma forma furar a bolha que lhe cercava e alcançar alguns espaços."

Nascido em Salvador, na Bahia, Jesus dos Santos vive em São Paulo há 14 anos, é músico e membro do Movimento Cultural das Periferias e codeputado estadual pela Bancada Ativista (PSOL).

Em sua passagem por Bauru, convidado do Ciclo Cultura & Política da Sociedade Amigos da Cultura, em 9/3, ele compartilhou um pouco da sua experiência e defende o lugar central da cultura como ferramenta de transformação social.

Cultura e política: é possível pensá-las juntas? Qual é a importância dessa união?

Os antigos filósofos europeus tentaram separar a cultura da política, mas, para mim, é tudo uma coisa só. A cultura é muito mais do que tocar um instrumento ou atuar numa peça teatral. A cultura é todo processo social, é a vivência das pessoas de um determinado lugar. Ela está na gastronomia, no modo de vestir, no modo de falar. A política é intrínseca à cultura e vice versa, uma coisa não se separa da outra. Se as duas não estão juntas, cabe a nós fazer o processo de união porque a cultura tem o poder de libertar as pessoas, de fazer as pessoas pensarem por si próprias. A gente vive numa sociedade colonizada, e esse colonialismo nos diz que não precisamos pensar de forma independente porque o pensamento já nos será dado por meio de um padrão a seguir, um padrão para se viver. Na atual conjuntura, as pessoas que enxergam a cultura com esse olhar sentem a responsabilidade de atuar, de se mobilizar.

E como você vê o atual cenário político?

Da onde eu venho, o cenário político de hoje não é muito diferente do cenário de cinquenta, cem anos atrás, ou do momento em que meus pais tinham a minha idade. Para mim, que sou um homem preto de periferia, o cenário é o mesmo. E acredito que o cenário seja muito parecido também para as mulheres, com o alto índice de feminicídio, e ainda para as pessoas trans, tendo em vista que nós estamos num dos países que mais mata essa população.

É lógico que nos últimos vinte anos nós tivemos certo desenvolvimento e progresso, mas dentro de uma democracia branca, burguesa e frágil - e isso eu não considero como avanço. Esse processo que nós experimentamos foi algo tão frágil que se quebrou e se perdeu. Hoje temos mais de 12 milhões de pessoas desempregas no país. O que eu acho que mudou e acentuou um pouco a sensação de crise é que determinado setor da sociedade, que outrora tinha a possibilidade de viver com dignidade, passou a ter esses direitos e liberdades democráticas também atacadas. O que aconteceu foi um aumento da parcela da população que sofre da precariedade estatal.

Qual seria o caminho para que o Estado fomente a cultura da periferia de modo adequado? Como ela deve ser vista politicamente?

Eu penso, primeiro, que a cultura precisa ser vista como ferramenta de transformação social. A cultura é tão potente que ela tem condições de transformar as pessoas. Quando se vê a cultura dessa forma, ela passa a ser a espinha dorsal da construção das políticas públicas - não só da política cultural, mas das políticas de saúde, de assistência social etc. Porque quando falamos em cultura, falamos em romper com a lógica dominante, em transformar as relações sociais. A política cultural deve estar no centro de qualquer projeto de desenvolvimento social.

Outro ponto importante para se pensar o fomento à cultura na periferia tem a ver com gestão. A gente vive uma gestão centralizada do poder: quem se elege, se elege a partir do apoio do setor dominante da sociedade, da elite. Esse gestor pode até tentar olhar para a periferia, mas isso ocorre por uma via populista - e o populismo logo morre, ele não se solidifica. Então, a partir desses gestores não pode haver uma política real de fomento na periferia, uma política que faça com que as pessoas tenham mobilidade. Acho que isso só vai se resolver quando as pessoas que não têm acesso ao poder passarem a acessar esse poder, para que elas possam repensar o funcionamento do Estado a partir das suas vivências. Aí sim teremos uma gestão que vai de fato pensar o acesso de toda a população ao orçamento público, teremos um outro projeto de cidade, um processo real de democratização dos bens públicos.

Como se organizar, como ter força política dentro da comunidade artística para que essa mudança aconteça?

São muitos egos e vaidades… Essa é uma pergunta difícil de responder porque a gente precisa vivenciar isso na prática. Já está dado que a conjuntura nos estimula cada vez mais a nos separar, que a lógica atual é de sermos cada vez mais predadores. É a meritocracia e o individualismo que permeiam todos os espaços, e não vai ser no setor artístico que isso não vai acontecer. O que eu penso desse processo de união é que ele precisa vir por meio do afeto. Quando se tem afeto, se tem confiança; quando se tem confiança, se tem respeito; e quando se tem respeito, não quer dizer que não tenha treta, mas você consegue lidar de outra forma com isso e continuar andando. Não existe uma resposta pronta, é por meio do exercício da afetividade, do respeito e da confiança que pode nos levar a ter respostas concretas para sair dessa cultura do medo que se instaurou. Nós estamos na cultura da prosperidade e precisamos sair disso. A prosperidade não pode significar acúmulo pessoal. Quando essa chave virar, talvez a gente consiga a união. É exercitar a afetividade e, enquanto isso, ir se juntando com as parceiras, com quem dá, com quem pode, com quem está afim. (Por Juliana Ramos e Mariana Vita)