10 de julho de 2026
Bruno Pasquarelli

O mais importante não é você, mas todo o resto do mundo


| Tempo de leitura: 4 min

Crises, epidemias, guerras e catástrofes são tão antigas quanto a própria história da humanidade, atingindo diversas populações ao longo do tempo e do espaço. E, como já vem sendo mostrado exaustivamente nos noticiários, o impacto da Covid-19 na vida das pessoas, nas relações econômicas e globais, tanto agora quanto no futuro, tende a ser de mais longo alcance do que qualquer outra crise de saúde pública.

Há mais de uma semana, o Brasil vem vivendo as incertezas da disseminação da Covid-19, com aumento do número de casos e imposição de medidas restritivas, como a quarentena. E, em momentos como esse, é essencial que a sociedade se volte com a mesma atenção para a prática da cidadania. Isso porque o coronavírus surge como uma ameaça externa que faz emergir a necessidade do agir coletivo, do dever de solidariedade entre um povo, impondo a todos nós a necessidade de repensarmos o nosso papel como cidadãos, e não somente como indivíduos.

A pandemia implica na importância cada vez maior da aplicação de condutas visando o bem comum, a comunidade, a coletividade, a interdependência e a cooperação, com a necessidade vital de colocar em prática todos esses conceitos, percebendo que é imprescindível um olhar coletivo por meio do equacionamento entre vontades individuais e vontades gerais, ou seja, entre a perspectiva individual e a perspectiva do grupo.

Obviamente, vivemos em uma realidade que vem incentivando o enfraquecimento dos laços sociais e comunitários. Uma sociedade marcada pela incerteza em relação ao futuro (principalmente em épocas de crises), pelo seu viés consumista e pouco sustentável e por condutas individualizadas, produzindo grandes dificuldades de relacionamentos entre pessoas, além da própria fragilidade dos vínculos. Uma sociedade que existe em função de uma atividade incessante de individualização das condutas, onde cada um dá sentido à sua vida por esforço próprio, pouco enfatizando a noção de comum, coletivo ou social, mas voltando-se à satisfação de seus desejos e deixando problemas coletivos a par de suas vidas.

Nesse contexto de fortalecimento do individualismo, a liberdade individual tornou-se o paradigma ideológico a ser seguido em todos os aspectos da vida diária, sendo usada de forma a satisfazer os desejos materiais dos seres humanos, desequilibrando toda unidade que corresponde ao tecido coletivo da sociedade. Contudo, situações de crise nos mostram como essa visão é frágil, sendo mais do que necessário conjugar liberdade individual com responsabilidade cidadã.

É indispensável, portanto, agirmos como cidadãos, considerando as restrições impostas à nossa própria liberdade, de maneira que nossos deveres devem visar, acima de tudo, o bem-estar da coletividade.

Quando estocamos produtos comprados em mercados ou remédios adquiridos em farmácias, estamos expondo outras pessoas ao risco – principalmente aquelas que não possuem meios de comprar uma quantidade grande de produtos. Ou, no momento em que minimizamos o problema dizendo que a letalidade é baixa ou que somos pessoas saudáveis e não corremos riscos, desconsideramos que a letalidade não é a única variável importante (visto que a rapidez do contágio é um fator determinante) e que existem diversos indivíduos que estão em grupos de risco e que qualquer forma de contato pode ser fatal. Também precisamos pensar na coletividade quando disseminamos informações falsas – como receitas caseiras que porventura seriam a cura para o vírus – ou que discriminem grupos e etnias. Ou mesmo quando desrespeitamos a quarentena, seja para dar uma caminhada em grupo na principal avenida da cidade ou para encontrar amigos e fazer um churrasco. Ficar em casa, para aqueles que podem, é antes de tudo um ato de respeito, de solidariedade e de coletividade para com aqueles que ainda têm que correr riscos trabalhando no dia a dia (como os profissionais da saúde, funcionários do comércio e agentes públicos).

O ser humano só se constitui em sua existência a partir da noção de coletividade. E, enquanto não entendermos que a liberdade individual está condicionada ao coletivo e à interdependência, perdemos nosso senso de humanidade e de cooperação, aumentando o risco de catástrofes como esta se tornarem ainda piores. A pandemia só pode ser superada de maneira coletiva, por meio da promoção da responsabilidade individual e com o próximo, da ação ética e da solidariedade comunitária.

Qualquer que seja o desenlace da nova epidemia, aprenderemos para transformar as próximas gerações, sendo que grande parte de nossa carga cultural, social e econômica deverá ser abandonada visando a construção de sociedades mais sustentáveis, equilibradas e, acima de tudo, coletivas e solidárias, repensando radicalmente o que queremos como humanidade: uma sociedade de indivíduos egoístas ou uma coletividade de pessoas cidadãs.

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