Fecharam a porta da minha casa e me deixaram com uma chave inútil na mão. Fecharam a porta da minha família, que já não vejo, e isso muito me dói. Proibiram-me o aperto de mão, o abraço e o beijo nos amigos da conversa fiada. Tenho proibidas as mãos de o rosto tocar. Acabaram com o meu sábado de batata frita, violão, garçom, cerveja gelada, vodka ou cachaça com mel. E agora como fica? Eu não bebo álcool gel. Fecharam de vez a porta do meu trabalho. E o salário do mês? Também a praça onde minhas pernas corriam. Para onde posso correr? Cada um que feche a sua porta e cumpra o respectivo dever. E o morador de rua, o que haverá de fazer? Em barraco de único cômodo dá pra evitar aglomeração? E os presos amontoados em celas infectas, quantos eles são? Fecharam a porta das musculosas academias. Deus meu, a porta das igrejas! Rasgaram o meu bilhete aéreo e me deixaram perdido no ar. Esvaziaram os estádios e a bola, que me divertia, parou de rolar. Suspenderam as novelas de água e açúcar, nem a boca se pode adoçar. Estouraram-me os nervos e os tímpanos, a tevê outra coisa não sabe falar. Fecharam a minha alegria e abriram o meu medo.
Medo do futuro que dá medo. Da minha cabeça pirando de medo. Das minhas mãos descuidadas na boca, olhos e nariz. Medo dessa terrível mamona assassina que, num espirro, a vida pode levar. Medo de sair às ruas e a doença me pegar. Mas se em casa ficar, como as despesas pagar? Medo das contas acumulando. Das estatísticas de morte aumentando. Das prateleiras vazias do higiênico papel. Medo dos bandidos que assaltam com álcool gel. Medo do discurso irresponsável. Medo de desabastecido ficar. Então, me viro e deliviro, mando o motoqueiro buscar.
Apesar dos pesares, escuto música no ar. Das janelas italianas, agora também brasileiras, ouço almas cantando o hino nacional. Nas varandas, violão clarinete, acordeon, gritos de esperança, panelas, bandeiras, acenos e um desejo forte (mas proibido) de abraçar. Uma cantora lírica, já desempregada, solta a voz e se põe a cantar. Proibida a vida de fora, a vida de dentro insiste em aflorar. O mundo todo se reinventa, saídas é preciso encontrar. Até mesmo idosos em risco convidam filhos e netos para jantar. É só, na mesa, a tela ligar.
Isolados estamos, sozinhos jamais.