08 de julho de 2026
Esportes

Guerra e bola

Luis Felipe Carrion
| Tempo de leitura: 3 min

Além de doenças, como na Gripe Espanhola, em 1918, e atualmente, a pandemia de coronavírus, o Campeonato Paulista também já foi paralisado e suspenso por causa de um conflito: a Revolução Constitucionalista de 1932. A batalha ocorreu devido à tentativa da elite paulista de retomar o poder perdido após a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas à presidência da República.

O Paulistão de 1932 contava com 12 participantes e teve início no dia 1 de maio. O regulamento era simples: dois turnos, ou seja, 22 jogos para cada time. A primeira rodada teve, entre outros resultados, São Paulo (campeão do ano anterior) vencendo a Portuguesa por 4 a 2, Palestra Itália (atual Palmeiras) fazendo 4 a 0 no Sírio e Corinthians derrotado pelo Juventus por 5 a 4.

Quando o conflito armado começou, houve necessidade de paralisar os jogos de futebol na capital paulista, conforme explica o professor de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e comentarista da ESPN Brasil, Celso Unzelte. "A revolução começou no dia 9 de julho e a última rodada havia sido realizada no dia 3. Os três grandes clubes de São Paulo haviam jogado. Aí interrompeu-se toda atividade na cidade e, claro, o futebol junto", aponta.

Em outubro, após o fim do movimento constitucionalista, a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), que comandava o futebol de São Paulo na década de 1930, decidiu pela retomada do Paulistão. Entretanto, ficou definido que a competição iria apenas até o final do primeiro turno e o campeão seria conhecido com 11 jogos, ao invés dos 22 previstos inicialmente no regulamento.

"Mesmo após o fim da Revolução, São Paulo ainda demorou para se reerguer e os jogos restantes foram feitos já em novembro. Então, o campeonato ficou parado de 3 de julho a 6 de novembro. Voltou inclusive com o Palestra Itália vencendo o Corinthians por 3 a 0", explica Unzelte.

O Palestra Itália foi campeão com 100% de aproveitamento. Para o professor e comentarista, o fato do time ter vencido todos os jogos foi fator determinante para que os outros participantes concordassem em encerrar o Paulistão daquele ano no primeiro turno e abrissem mão de jogar a outra metade da competição.

JOGADORES NO FRONT

A Revolução Constitucionalista de 1932 não só parou o Campeonato Paulista como colocou os jogadores e os clubes para participarem do conflito. Sedes sociais foram improvisadas como enfermarias e cerca de três mil atletas integraram o Batalhão Esportivo, liderado pelo craque da época Arthur Friedenreich, do São Paulo.

"Ele era um símbolo. Claro que não foi lá para frente de batalha tomar tiro. Deu-se um jeito que ele tivesse uma patente honorífica, não sei se tenente ou capitão. A principal importância não era o cara sair dando tiro na trincheira. Era a importância moral que ele tinha. Seria, por exemplo, como se explodisse uma guerra civil atualmente e o Pelé escolhesse um lado", esclarece Unzelte.

Outra história curiosa foi que, entre as doações feitas em uma campanha para arrecadar fundos para o Exército, por lutar na guerra, estava a Taça Conde Penteado, que deveria ter sido entregue ao São Paulo Athletic Club, em 1911, e estava desaparecida até então.