11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O urbanismo (contemporâneo) e a cidade doente

Prof. Dr. Adalberto da Silva Retto Jr - Unesp Bauru
| Tempo de leitura: 3 min

Periódicas ondas epidêmicas e seus efeitos originaram transformações importantes na forma urbana: dos leprosários para confinar as vítimas da peste às grandes obras de infraestrutura, como sistemas de esgoto e aquedutos para o controle da cólera, às normas de higiene que desenharam bairros projetados disseminados pelas nossas cidades, como o de Higienópolis, ao combate à tuberculose a partir de leis de cubagem de ar aplicadas à construção de moradias.

Se, por um lado, é verdade que devido à maior densidade populacional as epidemias encontraram nas cidades uma área de maior propagação do que no campo, não se deve esquecer que o mundo rural é a área em que muitas dessas doenças foram desencadeadas, a partir de práticas agronômicas e zootécnicas inadequadas.

A análise cuidadosa das características físicas dos assentamentos humanos e das condições da população, crucial na formação de uma ideia de higiene pública, foi a matriz do Urbanismo Moderno. A nova ciência urbana nasce, portanto, de parâmetros que migraram da saúde pública e que foram interiorizadas na forma de legislação como códigos de obras e planos urbanísticos, com o objetivo de regular o crescimento e as transformações urbanas.

Todavia, das preocupações de ordem sanitária nasce também a consciência de que a forma urbis é importante para a saúde dos habitantes da cidade. A partir do final do século XVIII, e principalmente no início do século XX, se pensarmos na maioria das cidades do Centro-Oeste Paulista como Bauru, tais parâmetros já estavam explicitados em um aparato legal que previa a localização de cemitérios, prisões, hospitais e matadouros. Mas a cidade não é apenas um terreno fértil para doenças contagiosas: como matriz da civilização, é o lugar onde nasceu o conhecimento e o pensamento científico, que permitiram aos seres humanos manter sob controle o efeito devastador dos patógenos.

A longa relação entre cidade e doença eventualmente permitiu a criação de áreas disciplinares especializadas na investigação, diagnóstico e identificação das terapias. A partir do conjunto de conhecimentos e técnicas destinadas a "cuidar" da cidade, surgiu a disciplina que denominamos Urbanismo. A base instrumental teórico-técnica desse campo disciplinar, que foi inicialmente definido como engenharia sanitária, foi capaz de se formar dentro de um campo de experimentação interdisciplinar em que médicos e engenheiros deveriam curar o grande corpo doente que era a cidade - il male città .

Mas, hoje, o urbanismo não é apenas técnica, mas uma disciplina que tem por base três aspectos da palavra cidade: urbs, a cidade como ambiente físico da atividade do homem; civitas, a sociedade que vive naquele ambiente; polis, a atividade de governo mediante a qual a sociedade organiza o próprio espaço. E hoje, a maneira como a cidade afeta seus habitantes está representada pelas más condições ambientais, não mais (ou não apenas) por contágio. A consciência do risco à saúde, que foi introjetada na condição urbana no momento em que as cidades possuíam limites precisos, já não é mais a mesma no momento em que se estimula uma alargada dispersão no território, que está levando à uma mutação morfológica e funcional do ambiente como um todo, alterando a própria noção de cidade.

As transformações atuais do espaço urbano na cidade contemporânea criam uma série de necessidades ao modo de fazer urbanismo, derivadas do reconhecimento do fenômeno em ação e que exigem o repensar de figuras e imagens recorrentes em nosso vocabulário. Entretanto, a realidade de nossas cidades mostra que os princípios básicos, como aqueles de saneamento, ainda são urgentes para que o processo de produção da cidade moderna seja efetivamente completado.

E, assim, a vocação inicial do Urbanismo, como disciplina capaz de promover o bem-estar social, uma disciplina que visava mitigar, ou melhor, reverter o modelo de vida em comum devastado por um desenvolvimento industrial impetuoso e feroz, ainda possui validade.

Os métodos e as ferramentas a serem adotadas ainda são aquelas do planejamento urbanístico como saber constituído, no qual o Plano Diretor se coloca como principal dispositivo para assegurar o direito coletivo à cidade.