08 de julho de 2026
Esportes

Onde a bola ainda rola


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Quem sente falta do futebol pode neste fim de semana trocar o Campeonato Paulista ou as principais ligas europeias pelas rodadas de alguns países que continuam com o calendário em andamento mesmo durante a pandemia do novo coronavírus. Na Bielorrússia e no Tajiquistão, o futebol se mantém em atividade.

A reportagem conversou com jornalistas, analistas políticos e jogadores com conhecimento sobre essas ligas para entender como os campeonatos se mantêm inalterados enquanto o resto do mundo batalha contra os efeitos da pandemia. Um detalhe em comum reúne essas nações: todas consideram que o novo coronavírus não chega a ser uma ameaça tão grande a ponto parar o calendário.

BIELORRÚSSIA E TAJIQUISTÃO

Componentes da antiga União Soviética, dois países estão entre os que mantêm suas ligas em andamento. Na Bielorrússia, inclusive, os jogos têm até presença de público. O presidente do país, Alexander Lukashenko, chegou a dizer semanas atrás que a doença deveria ser combatida com vodca, sauna e trabalhos com tratores. Apesar disso, já foram registrados quase 5 mil casos da doença na ação.

Além disso, há exemplos de insatisfação. Torcedores de alguns times se recusaram a ir aos jogos para evitar a contaminação. Com isso, são colocados nos assentos dos estádios fotos, manequins e camisas de futebol. Quem joga lá também defende uma paralisação. "Na minha opinião teria de parar, sim, o futebol. Aqui o calendário teria de adiar, parar os jogos e os treinos", disse o atacante brasileiro Gabriel Ramos, do Torpedo Zhodino.

O meia brasileiro Renan Bressan, atualmente no Paraná, morou por cinco anos no país e defendeu a seleção local. Agora à distância, ele acompanha com surpresa a manutenção do campeonato local e cita que a média de público caiu pela metade.

Bressan afirma que algumas características do país ajudam a explicar a decisão de se continuar com a liga. "É um pais bem menor, em que não entra tanta gente. É muito mais fácil para controlar", disse. "Eles têm uma cultura do estilo da União Soviética, bem mais fechada. Mas não tem nada disso de ditadura. As pessoas têm liberdade. Só que existe mais rigor e controle nas coisas, com mais regras", completou.

No Tajiquistão, na Ásia, já houve até comemoração de título durante a pandemia. Outra remanescente da antiga União Soviética, a nação teve no começo deste mês a disputa da Supercopa com os portões fechados para evitar a propagação da pandemia. Potência local, o Istiklol ficou com o título. O clube tem como torcedor ilustre o presidente tajique, Emomali Rahmon, que comanda o país desde a independência, em 1992.

Dois brasileiros já vestiram as cores do Istiklol em anos anteriores. O país não registrou até o momento casos do novo coronavírus, embora para o ex-zagueiro Glauber isso possa não ser a verdade. "Os canais de TV são todos do governo. Então, só passam para a população a visão deles. Meus colegas que continuam lá têm receio de jogar, mas tentam levar a vida ao normal. É um país bem fechado e a população está acostumada a obedecer", disse Glauber, que morou no país de 2013 a 2015.

Colega dele em parte desse período, o ex-atacante Jocimar Nascimento, relembra que os dirigentes principais do time eram parentes e amigos do presidente. "Se nós estávamos treinando e aparecesse presidente ou alguém importante, todo mundo abaixava a cabeça. O filho dele era chamado de príncipe. Eles têm muita influência sobre o futebol do país", explicou.

'ATRASO CONSENTIDO'

O professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Fausto Godoy, quando foi embaixador do Brasil no Casaquistão, ele teve contato com essas duas nações. "Essas antigas repúblicas da União Soviética ficavam para o escanteio na época do regime. Eram locais agrícolas e que agora procuram uma vocação. Ainda são sociedades muito tribais nesses locais Essas lideranças trazem para a população uma segurança das coisas e mantém o país em um atraso consentido", afirmou.