No fundo, a relaxante e reflexiva música sacra que acompanha toda a entrevista. Na frente, um homem que acredita na ciência enquanto análise racional da criação. Padre e doutor em Economia, o belga Herman Vos, de 80 anos, avalia o momento atual da pandemia da Covid-19 sob as óticas econômica e humana. Favorável a uma flexibilização gradual das atividades, mas com toda a precaução possível, ele afirma que a vida e a economia estão intrinsecamente ligadas e, assim, uma só existe por conta da outra.
O especialista se mostra contrário ao que chama de "monoteístas (defensores da existência de um só Deus) do mercado", que, para ele, não é a solução, principalmente, em tempos do novo coronavírus. Segundo o economista e religioso, a sobrevivência do mercado também depende da ajuda do Estado, dos trabalhadores e dos consumidores.
Herman, que morou em Bauru por quase quatro décadas, vive em Balen, na Bélgica, mas visita o município anualmente. Nesta semana, ele atendeu à reportagem na Catedral do Divino Espírito Santo, na região central da cidade, onde costuma ficar hospedado.
Formado em Teologia, Filosofia e Economia, o padre também fez mestrado e doutorado nesta última área. Inclusive, chegou a lecionar na Instituição Toledo de Ensino (ITE) até se aposentar, em 2006.
Abaixo, o religioso e cientista analisa o cenário atual e fala da macroeconomia, reforçando a necessidade de colocar o ser humano no centro do capitalismo. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Quantos anos o senhor acha que os países levarão para se recuperar da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus?
Herman Vos - É muito difícil colocar um número de anos em cima disso, porque ainda dependerá de quanto tempo a economia ficará parada. O Brasil, certamente, enfrentará mais dificuldades do que os países europeus e os EUA.
JC - Por quê?
Herman - Em 2015 e 2016, o PIB do País teve queda de 4% e 3,3%, respectivamente. O problema, associado à dívida pública, fez com que o Brasil entrasse em recessão. Nos anos subsequentes, 2017, 2018 e 2019, houve um crescimento fraco, pouco acima de 1%. Em 2020, a expectativa era de que o índice saltasse para 2,5%, mas a pandemia trouxe complicações. Hoje, existem em torno de 11 milhões de desempregados. Geralmente, quando a economia consegue se recuperar, o mercado de trabalho sofre tal impacto de forma mais defasada. Ocorre aos poucos.
JC - Quais são as perspectivas para a economia brasileira neste ano?
Herman - A revista britânica The Economist prevê que, em 2020, o PIB brasileiro registre uma queda de 5%. Paralelamente, a dívida pública deverá aumentar, afinal, o governo precisou socorrer a população carente e as empresas, com toda a razão. Logo, acredito que levará tempo - vários anos, mas não uma década inteira - para economia do País atingir um nível melhor de bem-estar social.
JC - O que mais dificultará a retomada após esse momento conturbado?
Herman - O Brasil sempre dependeu muito da exportação de commodities, como soja e minério de ferro, principalmente, para a China. Tal parceiro comercial, por sua vez, prevê um crescimento de apenas 1% ou 2% para 2020. Isso significa que a demanda chinesa pelos produtos brasileiros será mais modesta.
JC - Por ter afetado todos os países, o senhor acredita que este seja um choque sem precedentes na economia?
Herman - Com certeza. O Brasil, por exemplo, estava com um problema econômico e tentava consertar. Então, surgiu um "tsunami". Além disso, a crise anterior, em 2008, não afetou tanto as nações, porque os grandes líderes mundiais tinham mais senso de responsabilidade global, não somente nacional. Na atual circunstância, ao analisar a posição de Bolsonaro, Donald Trump e diversos governantes europeus, entendo que será muito mais difícil haver uma colaboração solidária orquestrada internacionalmente. Existe, portanto, uma tendência para fechar as fronteiras, fato que afeta o comércio mundial.
JC - A saída, portanto, está na cooperação entre os países?
Herman - Facilitará muito se houver entendimento entre os governos. Os problemas não são nacionais. A poluição, por exemplo. Nenhum país, separadamente, consegue resolver esta questão. As doenças, como o coronavírus, também não param em uma única fronteira. A crise deverá acentuar o dilema do nacional com o internacional. Se você quiser maior cooperação externa, terá de abdicar de parte da sua soberania. As nações também precisarão escolher entre os regimes autoritário e democrático.
JC - Como assim?
Herman - Em tempos de guerra - creio que a atual pandemia seja considerada uma - os governos têm mais poder para tomar decisões, às vezes, contra a vontade da maioria da população. Quando o estado de emergência acabar, a liberdade voltará a imperar ou os países tomarão gosto pelo autoritarismo?
JC - O senhor acha que o mundo teria fundos suficientes para adotar uma espécie de Plano Marshall, que reconstruiu a Europa após a 2.ª Guerra Mundial?
Herman - Depois da 2.ª Guerra Mundial, a iniciativa se limitou à Europa Ocidental. E mais: diferente de hoje, um dos motivos dos americanos colocarem a ideia em prática era o medo do comunismo, que tomou conta da Polônia, da Alemanha Oriental, da Checoslováquia, da Hungria e dos Países Bálticos. Resolveram, então, apoiar a recuperação das economias europeias, fazendo com que a população não caísse na tentação de querer aquele regime político. Falando em Marshall, ele ficou para a história enquanto estadista, perfil que está em falta nos dias atuais, pelo menos, por parte dos homens. As mulheres, como a chanceler alemã (Angela Merkel), além das primeiras-ministras da Dinamarca (Mette Frederiksen) e da Nova Zelândia (Jacinda Ardern), dão um show neste sentido. Elas, simplesmente, resolvem os problemas.
JC - A pandemia enfraquece o capitalismo?
Herman - É difícil de dizer. Se houver empatia pelos mais pobres, o regime colocará o ser humano em seu centro. Sou contra os monoteístas do mercado. O monoteísmo significa a existência de um só Deus. Dentro deste contexto econômico, a expressão se refere àqueles que acreditam que o mercado resolve tudo. A sua sobrevivência também depende da ajuda do Estado, garantindo uma ordem que permite às pessoas abrirem as empresas, dos trabalhadores e dos consumidores.
JC - A atual crise econômica traz algum reflexo positivo?
Herman - O primeiro ponto positivo que vejo é que as pessoas enxergaram a existência da poluição, porque ela caiu de forma assustadora. Outro consiste na solidariedade: a iniciativa privada resolveu se unir para ajudar os pobres.
JC - O senhor acredita que esta consciência deverá perdurar?
Herman - Pode ser que até continue. Um economista dizia que as guerras são os únicos momentos em que a desigualdade diminui. Depois da 2.ª Guerra Mundial, por exemplo, os índices neste sentido caíram absurdamente. Os peões, que se sacrificaram pelas suas respectivas pátrias, não tolerariam voltar a viver como outrora, principalmente, porque prometeram melhorias para motivá-los no decorrer da batalha.
JC - A pandemia diminui ou aumenta a xenofobia?
Herman - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que adotou uma política migratória conservadora, foi diagnosticado com Covid-19. Quando recebeu alta do hospital, agradeceu pelo atendimento de dois enfermeiros imigrantes: um português e outra da Nova Zelândia. Ele aprendeu a lição, mas acredito que a maioria das pessoas continuará culpando a China.
JC - O senhor defende a intervenção estatal em situações como esta?
Herman - Em tempos de guerra, para o grande medo dos neoliberais, a mão pesada do Estado se faz necessária. Os EUA, por exemplo, passaram a exigir que alguns fabricantes, como Ford e GM, produzissem respiradores, destinados aos pacientes graves de Covid-19. Depois, as regras acabam mudando. Isso é democracia.
JC - O senhor é a favor da quarentena imposta aos serviços não essenciais, como ocorre em Bauru?
Herman - Eu defendo a flexibilização gradual das atividades, desde que o façam com bom senso, tomando todas as precauções. A vida depende da economia e vice-versa.
JC - Qual é o impacto da pandemia em termos de religião?
Herman - Em relação à Igreja Católica, vejo que tem muita gente acompanhando as missas e as demais cerimônias através dos meios de comunicação, incluindo os digitais. Só saberemos o real impacto quando tudo voltar ao normal. Paralelamente, espero que haja um maior respeito pela ciência, que corresponde à análise racional da criação.
O QUE DIZ O ESPECIALISTA
"A crise deverá acentuar o dilema do nacional com o internacional. Se você quiser maior cooperação externa, terá de abdicar de parte da sua soberania"
"Quando o estado de emergência acabar, a liberdade voltará a imperar ou os países tomarão gosto pelo autoritarismo?"
"Em tempos de guerra, para o grande medo dos neoliberais, a mão pesada do Estado se faz necessária"
"Eu defendo a flexibilização gradual das atividades comerciais, desde que o façam com bom senso, tomando todas as precauções"