Ficar em casa, sem ter contatos com familiares e amigos, sem ir ao trabalho ou a shows e eventos e sem saber quando tudo isso vai passar gera ansiedade, solidão, falta de perspectiva e medo. Estes são sentimentos tidos como gatilhos para o aumento do consumo de bebidas alcoólicas, segundo alertam especialistas.
Não só a quantidade mas também a frequência do consumo devem ser observadas para evitar exageros que possam fragilizar o sistema imunológico, um dos principais riscos à saúde em meio à pandemia do novo coronavírus.
Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que os governos limitem a venda de bebidas durante a quarentena. Em artigo publicado no site da entidade, o álcool, o tabaco e outras drogas são chamados de estratégias inúteis para o enfrentamento do isolamento.
"O álcool tem um efeito temporário e depois o estresse aumenta e é preciso beber novamente", afirma Ricardo Abrantes do Amaral, médico psiquiatra e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Amaral, que é coordenador do programa de prevenção de álcool, tabaco e outras drogas do Hospital das Clínicas, além de médico do Hospital Sírio Libanês, aponta ainda que o alcoolismo prejudica diretamente a qualidade do sono, o que pode levar a quadros mais graves, em caso de infecção pelo coronavírus.
A médio prazo, o organismo sente outros efeitos, sobretudo o fígado. "O álcool desidrata o corpo porque o organismo precisa de grande quantidade de água para metabolizá-lo, além de sobrecarregar o fígado, tudo de que não precisamos nesse momento", explica Marcella Garcez, nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia.
De acordo com a médica, a desidratação favorece a queda da pressão arterial, ameaçando vários órgãos. Por isso, segundo a OMS, não há uma quantidade de álcool que possa ser considerada sem risco.
Como o consumo de bebidas faz parte do hábito de muitas pessoas, associado a momentos de confraternização e relaxamento, especialistas indicam o que consideram um consumo de baixo risco. Para as mulheres e pessoas com mais de 65 anos não é recomendado consumir mais do que três doses em um único dia e não ultrapassar sete doses na semana. Uma dose é o equivalente, por exemplo, a uma lata de cerveja, ou uma taça de vinho de 150 ml, ou uma dose de destilado de 45 ml, como vodca, cachaça e tequila. Para homens, o limite é de até quatro doses por dia, e eles não devem ultrapassar 14 doses na semana.
"Então, se uma pessoa beber todos os dias, certamente ela vai ultrapassar esses limites", resume Erica Siu, biomédica e especialista em dependência química, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa).